NOTíCIA · SOCIEDADE E DIREITOS

Como o caso de Maria da Penha mudou a proteção às mulheres vítimas de violência no Brasil

Há 19 anos, lei criada após brasileira esperar duas décadas por justiça estabeleceu que violência doméstica é crime. Desde 2023, medidas protetivas são concedidas imediatamente pela polícia
Maria da Penha Maia Fernandes, vítima de violência doméstica que lutou por anos para que seu agressor fosse condenado.
Direitos Humanos Gênero e Sexualidade Violência e Segurança Pública

A Lei Maria da Penha completa 19 anos nesta quarta-feira (7) em meio ao maior índice de violência contra mulheres já registrado no país. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgados no mês passado mostram que 37,5% das brasileiras sofreram algum tipo de violência entre 2024 e 2025, o equivalente a 21,4 milhões de mulheres. Os números revelam que 31,4% das vítimas sofreram ofensas verbais, 16,9% foram agredidas fisicamente, 16,1% sofreram perseguição (stalking), 10,7% foram vítimas de ofensas sexuais e 3,9% tiveram fotos ou vídeos íntimos divulgados sem consentimento.

A legislação, considerada pela ONU (Organização das Nações Unidas) uma das mais avançadas do mundo, estabeleceu um marco fundamental: violência doméstica não é “briga de casal” ou assunto privado. É crime! Antes da lei, agressões em ambiente familiar eram tratadas como delitos de menor potencial ofensivo, resolvidos com pagamento de cestas básicas. Hoje, o agressor pode ser preso preventivamente e a vítima tem direito a medidas protetivas de urgência.

A mudança nasceu de um caso que expôs a negligência do Estado brasileiro: Maria da Penha Maia Fernandes esperou 19 anos para ver seu agressor preso.

O CRIME QUE DEU ORIGEM À LEI

Em 29 de maio de 1983, a farmacêutica bioquímica Maria da Penha, então com 38 anos, dormia em sua casa em Fortaleza (CE) quando foi baleada nas costas pelo marido, o economista colombiano Marco Antonio Heredia Viveros. O tiro a deixou paraplégica.

À polícia, Viveros alegou tentativa de assalto. A versão foi desmentida pela perícia: nenhum vizinho viu assaltantes fugindo, joias e objetos de valor permaneceram na casa, e duas empregadas domésticas confirmaram que ele possuía uma espingarda –arma que negou ter às autoridades.

Quatro meses depois, quando Maria da Penha voltou para casa após cirurgias e internações, o marido a manteve em cárcere privado por 15 dias e tentou eletrocutá-la durante o banho.

A investigação revelou um plano premeditado. Viveros havia feito a esposa assinar procuração dando-lhe plenos poderes, inventou o desaparecimento do carro do casal, mantinha cópias autenticadas de documentos dela e tinha uma amante em Natal (RN).

Recentemente, no contexto das eleições presidenciais, a tese mentirosa de que Maria da Penha teria sido baleada em um assalto foi disseminada nas redes sociais e obteve quase 1 milhão de visualizações. O Ministério Público do Ceará, então, divulgou uma nota rechaçando a desinformação: “O processo ocorreu com toda a possibilidade de contraditório e ampla defesa, de ambas as partes. Mediante análise das provas, a Justiça determinou que o ex-marido de Maria da Penha cometeu dupla tentativa de homicídio contra a vítima.”

JUSTIÇA DEMOROU 19 ANOS

O primeiro julgamento ocorreu apenas em 1991, oito anos após o crime. Viveros foi condenado a 15 anos de prisão, mas saiu livre do fórum graças a recursos da defesa.

Em 1996, um segundo júri o condenou a 10 anos e 6 meses. Novamente, alegações de irregularidades processuais impediram o cumprimento da prisão, posteriormente reduzida para oito anos e seis meses, sob alegação de que, ao calcular a punição, a Justiça teria contado duas vezes a qualificadora de homicídio qualificado, que soma dois anos à pena.

A impunidade só terminou após pressão internacional. Em 1998, desamparada pela lei vigente no país, Maria da Penha levou o caso ao Centro para a Justiça e o Direito Internacional (Cejil) e ao Comitê Latino-americano para a Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem), que denunciaram a grave violação à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos).

O Brasil ignorou quatro notificações da comissão. Em 2001, foi responsabilizado por negligência, omissão e tolerância à violência doméstica. A OEA determinou que o país completasse o julgamento, investigasse os atrasos processuais, indenizasse a vítima e reformasse suas leis. O relatório 12.051 elaborado pela CIDH/OEA sobre o caso Maria da Penha está disponível para qualquer pessoa que quiser lê-lo.

Viveros foi preso apenas em 2002, 19 anos após o crime. Cumpriu dois anos em regime fechado, quando conseguiu ir para o regime semiaberto, e, em fevereiro de 2007, para a liberdade condicional. Ele já cumpriu a pena.

COMO SURGIU A LEI

A condenação internacional mobilizou organizações feministas. Em 2002, seis ONGs formaram consórcio para elaborar projeto de lei: Cfemea (Centro Feminista de Estudos e Assessoria), Advocaci (Advocacia Cidadã pelos Direitos Humanos), Agende (Ações em Gênero, Cidadania e Desenvolvimento), Cepia (Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação), Cladem (Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher) e Themis (Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero), além de feministas e juristas com especialidade no tema.

Após debates com Legislativo, Executivo e sociedade civil, o projeto chegou à Câmara dos Deputados em 2004 e ao Senado Federal em 2006. Foi aprovado por unanimidade em ambas as Casas.

Em 7 de agosto de 2006, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), então em seu primeiro mandato, sancionou a Lei 11.340. O nome homenageia Maria da Penha, cumprindo recomendação da OEA de reparação simbólica. O Ceará também pagou indenização à vítima.

O QUE MUDOU NA LEI MARIA DA PENHA EM 19 ANOS

A lei, conforme o STJ (Superior Tribunal de Justiça), criou mecanismos específicos de prevenção, punição e erradicação da violência contra a mulher, antes inexistentes no Brasil. A norma definiu cinco tipos de violência doméstica: física (feminicídio, agressão física), psicológica (perturbar a tranquilidade, perseguir, ameaçar, violar intimidade, publicar fotos e vídeos íntimos), sexual, patrimonial (dano, furto) e moral (injúria, calúnia, difamação). Também estabeleceu medidas protetivas de urgência e determinou a criação de varas e delegacias especializadas.

O registro de qualquer uma dessas formas de violência pode ser feito pela internet ou por telefone. A única exceção é o estupro, que exige que a vítima compareça pessoalmente a uma delegacia de polícia para registrar o boletim de ocorrência.

Uma mudança fundamental ocorreu em abril de 2023, quando Lula sancionou alterações na lei: agora, medidas protetivas devem ser concedidas imediatamente no momento da denúncia à autoridade policial, sem necessidade de aguardar decisão judicial.

“Não é necessário flagrante nem boletim de ocorrência. Inclusive, pode ser pedida online, de casa”, explica Susan Lucena, diretora da Casa da Mulher Brasileira na capital.

VIOLÊNCIA ALÉM DAS AGRESSÕES FÍSICAS

Embora a violência física seja a mais visível, outros tipos de agressão marcam o cotidiano das mulheres. Paula Macena, especialista em Direito das Mulheres e fundadora do primeiro escritório de advocacia para mulheres do Maranhão, destaca um tipo pouco discutido.

“Como eu advogo prioritariamente em ações que envolvem o Direito de Família, a violência que a gente mais se depara é a violência patrimonial. Um tipo de violência que na maior parte das vezes não é muito abordado pela mídia”, afirma Macena.

A advogada explica que cônjuges ocultam bens adquiridos durante o casamento para evitar a partilha. “Muitos casos em que estamos em uma ação de União Estável o cônjuge, movido de má fé, passa a alienar os bens ou a gente descobre que os bens não estão no nome do cônjuge. Que ele, conversando com um advogado ou às vezes recebendo conselho de amigos, já colocou o bem no nome da irmã, do primo, às vezes de um sobrinho.”

Ela relata casos extremos: “Já tive casos em que o cônjuge recebia dinheiro extra, sem ser o salário, e ele enviava esse dinheiro para a conta de um sobrinho menor de idade, isso é uma espécie de violência patrimonial.”

Segundo Macena, a complexidade para provar esse tipo de violência e o machismo ainda presente no Judiciário fazem muitas mulheres desistirem. “O judiciário infelizmente hoje ainda é muito machista e uma ação criminal para comprovar essa violência patrimonial pode demorar muitos anos e ser igualmente desgastante, o que acaba fazendo as mulheres desistirem desses bens.”

Sobre medidas protetivas para outros tipos de violência, Macena confirma: “É possível conseguir a medida protetiva além da violência física. A gente consegue a medida protetiva em casos também de violência moral e psicológica, quando a mulher recebe mensagens no WhatsApp de ameaça.”

O desafio, segundo ela, está na renovação das medidas. “A questão do deferimento da medida protetiva não é tão complexa, porque a palavra da vítima tem um grande poder, a grande questão hoje na prática da medida protetiva é a sua manutenção”, explica. Se durante os 90 dias o agressor não tentar reaproximação, ressalta Macena, o juiz “dificilmente defere a renovação da medida, porque o primeiro deferimento já surtiu efeito.”

AVANÇOS NO MARANHÃO

O estado ampliou sua rede de proteção nos últimos anos. São 24 delegacias especializadas – uma na capital e 23 no interior –, além da Casa da Mulher Brasileira, que concentra 11 serviços em um único espaço no Jaracaty, em São Luís.

A estrutura inclui Patrulha Maria da Penha, em expansão para o interior, e um dos poucos Departamentos de Feminicídio do país, especializado na investigação desses crimes.

Desde 2020, o “aluguel Maria da Penha” garante moradia temporária a mulheres em risco. A Casa Abrigo, com local sigiloso, acolhe vítimas sob ameaça de morte e seus filhos, oferecendo atendimento psicossocial e capacitação profissional.

“É uma forma de garantir mais proteção e possibilidade para as mulheres. A ampliação do número de delegacias faz com que as mulheres consigam acessar mais facilmente seus direitos”, ressalta a diretora da Casa da Mulher Brasileira em São Luís.

VIOLÊNCIA EM NÚMEROS

No Maranhão, os dados mostram avanços e desafios. O estado registrou redução nos feminicídios: 10 casos no primeiro trimestre de 2025, contra 11 no mesmo período de 2024. São Luís não teve nenhum registro este ano. Segundo a delegada Wanda Moura, chefe do Departamento de Feminicídio, 8 dos 10 autores já foram presos.

Mas a violência doméstica permanece alta. Só em janeiro e fevereiro de 2024, foram 3.585 casos registrados. O crime mais comum foi ameaça (1.957 registros), seguido por lesão corporal (837), casos da Lei Maria da Penha (444), estupro de vulnerável (126), perseguição (58) e estupro (41).

Nacionalmente, os principais agressores são parceiros íntimos (40%) e ex-parceiros (26,8%). Em 57% dos casos, a violência ocorre dentro de casa. Apenas 25,7% das vítimas procuram órgãos oficiais.

“Temos trabalhado muito a prevenção”, destaca Susan Lucena. “As medidas protetivas têm salvado vidas e têm se tornado cada vez mais de fácil acesso. A maioria absoluta é deferida porque a proteção é o mais importante naquele momento”, completa.

Mulher com o rosto desfocado ao fundo exibe a palma da mão aberta, com um “X” vermelho pintado, símbolo da campanha Sinal Vermelho contra a violência doméstica.
Sinal vermelho na palma da mão é utilizado por mulheres para pedir ajuda silenciosa em farmácias e outros estabelecimentos públicos. Foto: Joédson Alves / Agência Brasil

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ONDE DENUNCIAR E PROCURAR AJUDA EM CASOS DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO MARANHÃO

A maior parte dos registros pode ser feita pela internet ou por telefone; todos os serviços são gratuitos

POLÍCIA

Disque 190 – Emergências, risco iminente Atendimento 24 horas

CENTRAL DE ATENDIMENTO À MULHER

Disque 180 – Denúncias e orientações Funciona 24 horas, todos os dias Ligação gratuita e sigilosa. Não precisa se identificar.

DELEGACIA ONLINE

delegaciaonline.policiacivil.ma.gov.br – Para registrar boletim de ocorrência sem sair de casa. Disponível 24 horas.

MEDIDAS PROTETIVAS ONLINE

medidasprotetivas.tjma.jus.br – Solicitação sem advogado. Resposta em até 48 horas.

DELEGACIAS DA MULHER – 24H NO MARANHÃO

CAPITAL

Casa da Mulher Brasileira Avenida Professor Carlos Cunha, 572, Jaracaty Telefones: (98) 3214-8649 / 3214-8651. WhatsApp: (98) 9100-6166. Delegacia funciona 24h.

INTERIOR

O Maranhão conta com 23 delegacias especializadas:

Açailândia: R. Marly Sarney, s/n – (99) 3538-2199
Bacabal: R. Eurico Gaspar Dutra, s/n – (99) 3621-1331
Balsas: Av. Juscelino Kubitschek, s/n – (99) 3541-2402
Barra do Corda: Av. Missionário Perrin Smith, 171 – (99) 3643-2852
Caxias: Praça do Pantheon, s/n – (99) 3521-2561
Chapadinha: R. Gonçalves Dias, s/n – (98) 3471-3760
Codó: R. 31 de Março, s/n – (99) 3661-1721
Imperatriz: R. Sousa Lima, 167 – (99) 3524-6722
Itapecuru Mirim: Tv. Dr. Salomão Figuene, 59 – (98) 3463-1511
Pedreiras: R. Messias Filho, s/n – (99) 3642-2450
Pinheiro: R. Dom Pedro I, s/n – (98) 3381-1334
Presidente Dutra: R. Henrique Coelho, s/n – (99) 3663-3502
Rosário: R. Pe. Possidônio Monteiro, s/n – (98) 3345-1913
Santa Inês: R. Nova, 320 – (98) 3653-1589
São João dos Patos: R. Gonçalves Moreira, 766 – (99) 3551-2402
Timon: Av. Viana Vaz, 186 – (99) 3212-7171
Viana: R. Vinagre – (98) 3351-1599
Zé Doca: R. Penalva, 761 – (98) 3655-5350

DEFENSORIA PÚBLICA

Núcleo de Defesa da Mulher – Atendimento na Casa da Mulher Brasileira. Telefone: (98) 99242-0137. Assistência jurídica gratuita para quem não pode pagar advogado. Auxílio em processos de separação, guarda e pensão.

CASA DA MULHER BRASILEIRA

Avenida Professor Carlos Cunha, 572, Jaracaty, São Luís. Reúne em um só local:

  • Delegacia Especializada (24h)
  • Defensoria Pública
  • Ministério Público
  • Vara de Violência Doméstica
  • Atendimento psicossocial
  • Alojamento de passagem

CAMPANHA SINAL VERMELHO

Mulheres podem pedir ajuda em farmácias, órgãos públicos e bancos mostrando um X vermelho desenhado na palma da mão. O atendente deve ligar para o 190.

PATRULHA MARIA DA PENHA

Telefones: (98) 2106-8480 / 99219-3671. Acompanha mulheres com medida protetiva. Verifica cumprimento das medidas.

CASA ABRIGO DE SÃO LUÍS

Para mulheres sob ameaça de morte. Local sigiloso. Acolhe mulher e filhos por até 90 dias (prorrogável). Encaminhamento via rede de atendimento.

CENTROS DE REFERÊNCIA

SÃO LUÍS

CRAMSV – Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência. Localizado na Casa da Mulher Brasileira. Telefone: (98) 98198-2120. Atendimento psicológico e social.

IMPERATRIZ

Casa da Mulher Maranhense – Avenida São Sebastião, s/n, Vila Nova. Telefones: (98) 98405-6193 / 98406-3801.

CRAM – Centro de Referência R. Monte Castelo, 329, Centro Telefone: (99) 99132-7479.

AÇAILÂNDIA

CRAM – Avenida Edilson Caridade Ribeiro, s/n, Residencial Tropical.

Advogada e estudante de Jornalismo, atua na cobertura de direitos das mulheres, cultura e temas ligados à cidadania. Está em formação em jornalismo de dados, área que pretende integrar à apuração para aprofundar investigações e mapear políticas públicas, especialmente nas áreas de diversidade, inclusão e produção cultural.

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