Senador no plenário do Senado Federal, sentado à mesa diretora.
Análise · Vida Pública

Weverton inicia ano eleitoral como investigado em esquema bilionário contra aposentados

Ministro do STF negou prisão, mas determinou buscas e manteve pedetista em inquérito da Operação Sem Desconto. Senador maranhense deve ser convocado pela CPMI em fevereiro
Corrupção e Integridade Pública

O senador Weverton Rocha (PDT-MA) começa 2026 figurando como investigado no STF (Supremo Tribunal Federal) por suspeita de participação em organização criminosa que desviou mais de R$ 6 bilhões de aposentados e pensionistas do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

É nessa condição que terá de enfrentar a campanha pela reeleição em outubro. Antes disso, deve encarar uma convocação pela CPMI do INSS, prevista para fevereiro.

Em dezembro, a Polícia Federal deflagrou a quinta fase da Operação Sem Desconto e cumpriu mandado de busca e apreensão na residência do senador. A PF também pediu sua prisão preventiva, mas o ministro André Mendonça negou, acompanhando parecer da PGR (Procuradoria-Geral da República) que considerou as provas “frágeis” e “assentadas em inferências ainda não consolidadas”. Weverton segue como investigado, mas sem medidas restritivas.

A representação policial, contudo, não é branda. O documento descreve o senador como “liderança e sustentáculo das atividades empresariais e financeiras” de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como principal articulador do esquema. Segundo os investigadores, Weverton teria atuado como “beneficiário final” e “sócio oculto” de operações financeiras, recebendo recursos por meio de pessoas interpostas, entre elas assessores parlamentares.

A PF encontrou, em conversas entre funcionários de Antônio Camilo, um arquivo Excel intitulado “GRUPO SENADOR WEVERTON”. Também há registro de foto do parlamentar a caminho de aeronave cujas cotas foram adquiridas pelo “Careca do INSS”.

Talvez o ponto mais delicado para Weverton não seja o que a PF diz sobre ele diretamente, mas o que aponta sobre seu entorno. Pelo menos quatro pessoas com passagem pelo gabinete do senador figuram na investigação.

Adroaldo da Cunha Portal foi assessor de Weverton entre 2019 e 2023. Dali, saltou para o cargo de secretário-executivo do Ministério da Previdência Social, número dois da pasta que supervisiona o INSS. Em dezembro, teve prisão domiciliar decretada. A PF encontrou anotação de pagamento de R$ 50 mil destinado a “Adro” em planilha apreendida na casa do “Careca do INSS”.

O filho de Adroaldo, Eduardo Silva Portal, trabalha no gabinete de Weverton desde junho de 2023. Segundo a investigação, depositou quase R$ 150 mil em espécie na conta do pai entre outubro de 2023 e janeiro de 2024.

Gustavo Marques Gaspar, descrito pela PF como “braço direito” do senador, trabalhou em seu gabinete por quatro anos e teve prisão preventiva decretada. Em 2023, quando reportagem do Estadão o apontou como “funcionário fantasma”, Weverton saiu em sua defesa. Agora, planilha apreendida registra pagamento de R$ 100 mil em favor de “Gasparzinho”.

Vanessa Barramacher Tocantins, ex-assessora do senador, era chefe de gabinete do Ministério da Previdência. A PF identificou movimentações suspeitas em sua conta, incluindo transferências para Adroaldo.

A PGR entendeu que, embora os indícios apontem para assessores, não há comprovação de que Weverton tenha recebido valores diretamente ou comandado ações ilícitas. “O simples fato de ex-assessores terem sido destinatários de valores não autoriza, automaticamente, a extensão de responsabilidade ao titular do mandato”, escreveu procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Mendonça acrescentou que prender um parlamentar “acarreta efeitos drásticos em uma república” e exige “extrema cautela”. É um argumento institucional válido. Mas não resolve o problema político de Weverton.

O senador terá de administrar a crise em dois fronts. No jurídico, aguarda os desdobramentos do inquérito e a provável convocação pela CPMI, cujo relator, o deputado Alfredo Gaspar (União-AL), já protocolou requerimento para ouvi-lo. No eleitoral, disputará uma das duas vagas ao Senado pelo Maranhão carregando o peso de uma investigação que envolve fraudes contra aposentados.

Em 2018, Weverton foi eleito com quase 2 milhões de votos, à época, recorde no estado. Naquele ano, tinha o apoio de Flávio Dino, então governador. Agora, Dino é ministro do STF e Weverton, mesmo com o apoio do presidente Lula, do governador Carlos Brandão (sem partido) e da presidente da Assembleia Legislativa, Iracema Vale (PSB), enfrenta um cenário bem mais hostil.

Em nota divulgada em 18 de dezembro, após a operação da PF, o senador disse ter recebido “com surpresa” a busca em sua residência e se colocou “à disposição para esclarecer quaisquer dúvidas”. Não voltou a se pronunciar sobre os pontos específicos das suspeitas.

O ano mal começou e Weverton já sabe que será longo.

Fundador-Editor do Atual7. Especializado em jornalismo investigativo e de dados, utiliza a LAI para expor corrupção, abusos e violações no setor público e privado, fortalecendo o direito da sociedade à informação e a responsabilização de quem atenta contra o interesse público.

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