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Gestão Dr. Julinho culpa pais por passarem noite em fila por matrícula escolar em São José de Ribamar

Prefeitura confirma registros de familiares dormindo em calçada de unidade no bairro Parque Vitória, mas nega falta de vagas
Homem de terno azul e faixa verde, amarela e azul discursa em púlpito, com banner de São José de Ribamar ao fundo.
Sob gestão Dr. Julinho, Secretaria de Educação diz que não pode ser responsabilizada por fila na porta de escola no terceiro município mais populoso do Maranhão Reprodução
Educação Infância e Juventude Periferias e Território

Pais e responsáveis passaram a noite de segunda (19) para terça-feira (20) em fila na calçada da Escola Municipal Parque Vitória, em São José de Ribamar, na tentativa de garantir matrícula dos filhos para o ano letivo de 2026.

A situação foi denunciada nas redes sociais pelo professor e ativista social Wesley Sousa. Vídeo publicado por ele no Instagram mostra dezenas de familiares se organizando para dormir no local por medo de perderem o prazo e não encontrarem vagas.

“As pessoas já estão organizadas desde as nove horas da noite para passar a noite aqui porque amanhã é dia de matrícula. Vê o absurdo que é: para algumas turmas, sequer existem vagas”, denunciou o ativista. “Este território do Parque Vitória e adjacências é maior do que vários municípios do Maranhão; por obviedade, só essa escola não vai dar conta desse território, das crianças que estão nesse território e têm o direito fundamental à educação”, relatou.

O bairro Parque Vitória tem 7,5 mil habitantes distribuídos em pouco mais de 3 mil domicílios, segundo dados do Censo Demográfico 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) analisados pelo Atual7. A escola é a única unidade municipal da localidade e registrou mais de 1,1 mil alunos no Censo Escolar 2024, do MEC (Ministério da Educação).

Um cartaz fixado na entrada da escola, ao qual o Atual7 teve acesso, listava as séries com “vagas em aberto” para 2026. O documento apresentava 18 vagas para o 2º ano, 4 para o 3º, 16 para o 4º, 30 para o 6º, 31 para o 7º, 31 para o 8º e 31 para o 9º ano, mas não incluía turmas de 1º e 5º ano do ensino fundamental. Dados do Censo Escolar mostram que a unidade possui essas séries.

Cartaz da Semed de São José de Ribamar com tabela de vagas em aberto para matrícula na Escola Municipal Parque Vitória. Documento lista vagas do 2º ao 9º ano, mas não inclui 1º e 5º ano.
Cartaz fixado na Escola Municipal Parque Vitória mostra oferta de vagas que levou familiares a passarem a noite em fila na calçada

A Constituição Federal estabelece a educação como “direito de todos e dever do Estado” e determina que o ensino básico é obrigatório e gratuito para a população de 4 a 17 anos. A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) assegura vaga em escola pública próxima à residência. O STF (Supremo Tribunal Federal) já firmou entendimento de que a omissão do poder público em garantir vagas “importa afronta à Constituição”.

São José de Ribamar é o terceiro município mais populoso do Maranhão, com cerca de 250 mil habitantes, segundo o IBGE. O prefeito Júlio Cesar de Souza Matos, o Dr. Julinho (Podemos), médico obstetra de 73 anos, foi reeleito em outubro de 2024 com 54,27% dos votos.

Para a gestão municipal, a prefeitura não pode ser responsabilizada pela fila formada na porta da unidade escolar no Parque Vitória.

Em nota encaminhada ao Atual7, a Semed (Secretaria Municipal de Educação) admitiu que “os registros [do vídeo divulgado por Wesley Sousa] são reais”, mas alegou que “a iniciativa partiu dos próprios pais e responsáveis, que se anteciparam por receio de não haver vagas suficientes”. Segundo a pasta, “a direção da escola informou que havia número suficiente de vagas para atender a toda a demanda”.

A Semed é comandada por Conceição de Maria Gomes Leite. Na nota, a pasta não detalha quantas vagas a escola oferta por série, qual a demanda registrada no período de matrícula escolar, nem se há lista de espera na unidade.

Jornalista dedicada à pautas sociais, direitos humanos e cultura local. Responsável pela cobertura investigativa de questões que impactam as comunidades maranhenses.

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