Uma mobilização iniciada nas redes sociais por moradores de comunidades da zona rural de São Luís resultou em dupla vitória nesta quinta-feira (22). O prefeito Eduardo Braide (PSD) anunciou o asfaltamento das estradas do Cajueiro e Mãe Chica, na região de Tauá-Mirim, e a Justiça determinou o retorno das linhas de ônibus às comunidades em cinco dias. A região está sem transporte público desde 1º de janeiro de 2026.
A pressão começou no dia 16, quando o Coletivo Juntos São Luís publicou um vídeo denunciando que mais de 600 famílias que moram na localidade estavam isoladas. Três dias depois, a costureira Jacilene de Abreu, moradora da comunidade Mãe Chica, usou o perfil onde vende as bolsas que produz para repercutir a denúncia, divulgada pelo site Folha do Maranhão, e cobrar resposta do prefeito.
Em relato ao Atual7 antes da promessa de Braide e da determinação judicial, Jacilene, 37 anos, afirmou que a suspensão dos ônibus atingia diversas regiões da zona rural da capital, como Taim, Porto Grande e várias comunidades que integram o Cajueiro, entre elas Andirobal, Guarimanduba, Sol Nascente e Egito, localizadas na porção oeste da Ilha de São Luís.
Segundo ela, os problemas com o transporte no local não são recentes. “Os ônibus deixaram de circular no dia 1º de janeiro, mas as falhas já eram constantes. Eram ônibus velhos, que quebravam com frequência. A gente não tinha garantia de sair de casa e conseguir voltar, ou de chegar no horário nos compromissos”, denunciou.
Ainda de acordo com Jacilene, antes mesmo da suspensão dos ônibus, a linha do Cajueiro operava com apenas um veículo, circulando a cada duas horas, tanto no sentido centro quanto bairro. Devido às condições das vias, diz, carros por aplicativo não aceitam corridas para a região e os moradores sofrem também com o impacto financeiro. “Eu gasto 20 reais todos os dias só de mototáxi para conseguir sair da comunidade, fora o ônibus da Vila Maranhão até o centro que é outro custo. Tem pessoas que pagam de 25 a 50 reais por dia”, contou.

A suspensão do transporte coletivo, que agora deve ser retomado por determinação da Justiça, afeta de forma ainda mais severa grupos vulneráveis, como idosos, pessoas com deficiência e mães de crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista). Moradores relataram ao Atual7 que no Andirobal e no Egito há idosos com dificuldade em acesso à assistência médica e mães que estariam deixando de levar os filhos para terapias e tratamentos.
A moradora Ruth Silvia, de 51 anos, da região Andirobal, é pessoa com deficiência e contou à reportagem que a falta de transporte compromete sua autonomia. “Meu direito de ir e vir foi usurpado. O bairro mais próximo fica a 7 quilômetros de onde moro, e como tenho dificuldades de locomoção, esse trajeto se torna inviável”, disse. Por ser trabalhadora autônoma, Ruth afirmou que o custo do mototáxi está fora do seu orçamento e que, por isso, deixou de sair de casa.
“A gente se sente de mãos atadas, enganados, esquecidos pelos nossos representantes. Somos trabalhadores, estudantes, eleitores, e nossos direitos precisam ser respeitados”, desabafou Ruth.
Segundo o presidente da Associação Quilombola do Andirobal, Nathaniel Costa Barreto, a luta pela melhoria da estrada do Cajueiro é antiga. “Todo ano é a mesma coisa: a estrada corta, o ônibus não entra, ambulância atola e moradores andam quilômetros debaixo de sol e chuva”, afirmou.
Antes do caso ser levado às redes sociais, a comunidade já buscava por soluções junto ao poder público.

Em novembro do ano passado, uma audiência pública sobre problemas de acesso ao transporte coletivo, realizada na sede da DPE (Defensoria Pública do Estado), resultou no ajuizamento de uma ação civil pública na Vara de Interesses Difusos e Coletivos de São Luís. Na época, segundo Nathaniel, a empresa Viação Estrela, integrante do Consórcio Central, responsável pelas linhas, já havia comunicado à Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes que suspenderia a operação a partir do início deste ano, caso não houvesse melhorias nas vias. “Desde então, ficamos sem resposta efetiva. A SMTT joga a responsabilidade para a Semosp, que faz serviços paliativos. Com a primeira chuva, tudo se perde”, relatou.
A decisão judicial desta quinta deferiu tutela de urgência na ação movida pela DPE-MA e determinou que o Consórcio Central e a Prefeitura de São Luís restabeleçam o transporte nas linhas T015 (Porto Grande) e T019 (Cajueiro) no prazo de cinco dias, sob pena de multa de R$ 5 mil por dia de descumprimento.
Enquanto aguardam o cumprimento, moradores seguem enfrentando longas caminhadas, gastos elevados com transporte alternativo ou a impossibilidade de se deslocar. “Está um caos. A comunidade só acredita vendo”, resumiu Nathaniel.
O Atual7 solicitou à prefeitura de São Luís posicionamento sobre a suspensão do transporte e o impacto para os moradores. Até o fechamento, não houve resposta. Nas redes sociais, o prefeito Eduardo Braide se manifestou apenas sobre o asfaltamento, mas sem relacionar o compromisso com a crise do transporte público na região.
