O governador Carlos Brandão (sem partido) afirmou publicamente pela primeira vez, nesta segunda-feira (2), que permanecerá no cargo até dezembro de 2026, descartando qualquer possibilidade de disputar o Senado. “Melhor ficar sem mandato, mas salvar o grupo”, declarou durante a solenidade de reabertura dos trabalhos legislativos na Assembleia Legislativa do Maranhão.
A declaração veio seis dias depois de presidentes e representantes de 12 partidos da base aliada anunciarem, em reunião no Palácio dos Leões, apoio ao secretário de Assuntos Municipalistas Orleans Brandão (MDB), sobrinho do mandatário, como pré-candidato ao governo. Participaram do encontro, realizado na terça-feira (27), dirigentes de MDB, PP, União Brasil, PDT, Podemos, PRB, PSDB, PV, Solidariedade, Cidadania, PRD e Avante. Um dia antes, cerca de 90% de dirigentes do PT no Maranhão já haviam feito o mesmo gesto político de alinhamento.
A permanência de Brandão no cargo tem efeito direto sobre a sucessão. Ao não se desincompatibilizar até o prazo de 4 de abril, o governador impede que o vice Felipe Camarão (PT) assuma o Palácio dos Leões e se cacife como candidato com a estrutura do governo. Para Brandão, sair significaria entregar a máquina estadual a um grupo com o qual a relação se deteriorou a ponto de ruptura. A decisão de ficar, porém, tem um efeito colateral na estratégia nacional do presidente Lula (PT), que tem dito que gostaria de ter Brandão como candidato a senador pelo Maranhão nas eleições de 2026.
O Senado se tornou a principal frente eleitoral de Lula. O PT aprovou, em dezembro de 2025, resolução que trata a Casa como prioridade, afirmando haver “urgência de eleger uma nova correlação de forças no Legislativo”. Em eventos do PSB e do próprio PT, o presidente já declarou publicamente que aliados precisam concentrar esforços na eleição de senadores para evitar que a oposição alcance maioria. “Se esses caras [da extrema-direita] elegerem a maioria dos senadores, vão fazer uma muvuca nesse país”, disse Lula em congresso do PSB.
No Maranhão, a conta é direta. Lula quer eleger o maior número possível de senadores aliados, e Brandão seria um nome competitivo e natural para uma das duas vagas do estado. Mas o governador avalia que o risco de entregar o Palácio dos Leões ao vice é maior do que o custo de abrir mão do Senado.

A decisão do governador não é nova. Em fevereiro de 2024, o Atual7 revelou que a família Brandão já cogitava a candidatura de Orleans ao Palácio dos Leões. Em junho de 2025, conforme também revelou o Atual7, Brandão tomou a resolução de ficar no cargo e comunicou a Lula durante agenda institucional na Europa. Na mesma ocasião, Brandão definiu com aliados locais que apoiaria Orleans na sucessão e destinaria as vagas ao Senado ao senador Weverton Rocha (PDT), a pedido do próprio Lula, e ao ministro do Esporte André Fufuca (PP). A possibilidade de a presidente da Alema, Iracema Vale (PSB), ocupar a vice pela via do PT já era, naquele momento, uma das alternativas em negociação, como também revelou o Atual7.
Para entender por que Brandão optou por ficar em vez de disputar o Senado, é preciso voltar à relação entre ele e Camarão.
O impasse remonta à eleição de 2022. Quando Brandão foi reeleito e Dino se elegeu ao Senado pela mesma estrutura, aliados do vice sustentavam a expectativa de que o petista maranhense assumiria o Palácio dos Leões no último ano de mandato, com Brandão disputando o Senado e Camarão concorrendo à reeleição como governador.
A relação, porém, se deteriorou ao longo da gestão. Destoando da maioria do grupo, Camarão ignorou e atropelou orientações de Brandão quando assumiu interinamente o governo, apoiou candidatos diferentes dos indicados pelo governador nas eleições municipais de 2024, recuou de decisões políticas tomadas em conjunto e fez declarações públicas contrárias ao atual chefe do Executivo estadual. No entorno do Palácio dos Leões, há relatos de que o vice, até hoje, mantém articulações com opositores do governo, incluindo conversas sobre eventual afastamento de Brandão do cargo por via judicial.
Mesmo com o cenário conturbado, em outubro de 2024, revelou o Atual7, Brandão retomou o diálogo com o vice, propondo uma renúncia conjunta, na qual ele iria ao Senado, atendendo Lula, e Camarão tentaria uma vaga na Câmara dos Deputados. Com a saída de ambos, Iracema assumiria o governo e convocaria uma eleição indireta.
A proposta, porém, não avançou, por pressão do grupo que cerca o vice-governador.
Desde que Dino foi indicado por Lula ao STF (Supremo Tribunal Federal), em dezembro de 2023, e se afastou formalmente da política partidária, os parlamentares que formavam seu núcleo de sustentação ficaram sem padrinho político. São deputados estaduais como Rodrigo Lago (PCdoB), Carlos Lula (PSB), Ricardo Rios (PCdoB), Júlio Mendonça (PCdoB), Othelino Neto (PSB), Leandro Bello (PSB), e os deputados federais Rubens Pereira Júnior (PT) e Márcio Jerry (PCdoB-MA), presidente estadual do partido e porta-voz informal do grupo.
Sem acesso à máquina estadual, que está nas mãos de Brandão, e sem espaço na coalizão que se forma em torno de Orleans, esses parlamentares dependem de uma candidatura própria ao governo para garantir palanque, tempo de TV e chances reais de reeleição. Por isso Camarão passou a ser, inicialmente, o único nome usado pelo grupo para encabeçar essa chapa.
Há ainda uma razão mais concreta para que os parlamentares anilhados a Dino resistam à ideia de Camarão disputar a Câmara dos Deputados, como Brandão propôs. A federação PT-PCdoB-PV elegeu apenas dois deputados federais pelo Maranhão na última eleição, justamente Rubens Pereira Júnior e Márcio Jerry. Se Camarão entrasse na disputa à Câmara como candidato prioritário do PT, ameaçaria diretamente os mandatos de ambos. Rubens, por ser do mesmo partido, perderia espaço na legenda. Jerry, do PCdoB, que já depende de ser puxado pela federação, teria ainda mais dificuldade de se reeleger. Para esses dois, manter Camarão como candidato ao governo não é apenas estratégia de grupo. É autopreservação.
Assim, a pressão para que Camarão se mantenha na disputa pelo governo vem menos de uma ambição pessoal do vice e mais da necessidade de sobrevivência dos que o cercam.
Até outubro do ano passado, a tensão entre os dois campos era percebida apenas nos bastidores dos três poderes do Estado e da República. Mas áudios com conversas de aliados de Dino, divulgados na Assembleia Legislativa pelo deputado estadual Yglésio Moyses (PRTB), aumentaram o desconforto ao ponto do rompimento se tornar público. As gravações mostravam, entre outras pessoas próximas a Dino, Rubens e Jerry em conversas sobre pressões envolvendo processos no STF, comando de prefeituras, vagas no TCE-MA (Tribunal de Contas do Estado do Maranhão) e a ascensão forçada de Camarão ao comando do Palácio dos Leões.
À época, Brandão classificou o episódio como “chantagens e barganhas nada republicanas” e afirmou que os interlocutores “se fizeram gravar”. Rubens Júnior e Márcio Jerry chamaram as gravações de ilegais e clandestinas, devolveram duas secretarias estaduais (Articulação Política e Cidades e Desenvolvimento Urbano) que o grupo controlava e romperam formalmente com o governo. Já a assessoria de Dino, por meio de nota, afirmou que “o ministro não participou e nem responde por SUPOSTOS diálogos políticos de terceiros”.

Antes mesmo do vazamento, as supostas ameaças aceleram a saída de Brandão do PSB, partido ao qual era filiado e cuja direção no Maranhão hoje é controlada pela senadora Ana Paula Lobato, suplente de Dino que herdou sua cadeira no Senado. Desde setembro de 2025, Brandão está sem partido e tem se aproximado de legendas como MDB, União Brasil e Republicanos.
Ainda no ano passado, Brandão informou a Lula que só deixaria o governo se Camarão também renunciasse. A condição, porém, novamente não prosperou, porque o grupo que cerca o vice depende de que ele permaneça como candidato ao governo.
Recentemente, a disputa se estendeu para dentro do PSB. Na última sexta-feira (30), o PSB comunicou à Assembleia Legislativa a desfiliação de seis deputados estaduais da base governista (Adelmo Soares, Andreia Rezende, Antonio Pereira, Daniella, Davi Brandão e Florêncio Neto). No mesmo ato, o partido formalizou a entrada de Othelino Neto e Leandro Bello, além de Fernando Braide, irmão do prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD). Marido da senadora Ana Paula Lobato, Othelino foi o deputado que acionou o STF para questionar as indicações de Brandão ao TCE, nas ações que acabaram sob relatoria de Dino.
Nesta segunda, porém, uma liminar judicial suspendeu as desfiliações, devolvendo os seis parlamentares ao PSB e garantindo ao governo Brandão maioria dentro da legenda.
Além de Camarão, os parlamentares alçados ao poder sob Dino também buscam alternativas fora da própria base. Uma delas é a aproximação com Eduardo Braide. Em janeiro, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Camarão admitiu como “plano B” disputar o Senado numa chapa encabeçada por Braide. A articulação já tem movimentos concretos, ainda que apenas nos bastidores e apesar de negativas públicas do prefeito, que teme prejuízo eleitoral junto ao eleitorado bolsonarista. Em dezembro, Braide se reuniu em Brasília com o presidente nacional do PT, Edinho Silva. Conforme revelou o Atual7, na reunião, o prefeito da capital maranhense prometeu aos petistas pedir votos para Lula. A entrada do irmão do prefeito no PSB, anunciada no mesmo comunicado que desfiliou os seis deputados governistas, é lida por aliados de Brandão como parte dessa articulação.
Enquanto o impasse segue sem resolução, a composição da chapa majoritária liderada por Orleans avança. Na semana passada, Orleans reafirmou a parceria com Fufuca e descartou rumores de fissuras internas. “Nós já estivemos juntos, nós estamos juntos e tenho convicção muito grande de que vamos caminhar juntos por muito tempo ainda”, disse. A configuração, como já havia antecipado o Atual7, prevê Fufuca e Weverton nas duas vagas ao Senado, com Iracema na vice.
Além disso, no mesmo dia em que Brandão afirmou publicamente que permanecerá no cargo até o fim de 2026, Iracema disse que não descarta retornar ao PT, respondendo ao convite da direção nacional do partido para sua refiliação. A parlamentar é a principal articuladora do projeto de Orleans na Assembleia Legislativa e foi a primeira a declarar publicamente preferência pelo nome do secretário, em junho do ano passado.
A refiliação de Iracema ao PT resolveria duas equações ao mesmo tempo. Daria ao partido a posição de vice na chapa majoritária e permitiria ao PT integrar a composição de Orleans sem que o nome escolhido fosse Camarão. A mudança de partido, no entanto, depende da janela partidária de março. Até lá, Iracema segue filiada ao PSB.
Se a composição se confirmar e a chapa for eleita, Iracema deixará de ser a terceira na linha sucessória estadual, como presidente da Assembleia, e passará a segunda, como vice-governadora.
Hoje, além da base de 12 partidos, o sobrinho de Brandão já conta com quase 150 dos 217 prefeitos maranhenses. Pesquisa Econométrica de janeiro, registrada na Justiça Eleitoral sob o protocolo MA-08591/2026, indica que a disputa pelo governo se encaminha para uma polarização entre Orleans, com 33,9%, e Braide, com 32,2%. Camarão só aparece na quarta colocação, com apenas 7,6%. O levantamento ouviu 1.362 eleitores nos dias 8 a 11 do mês passado, tem margem de erro de 2,7 pontos percentuais para mais ou para menos e grau de confiança de 95%.