Uma plataforma criada para orientar decisões de mercado pode acabar abrindo novas portas para o debate público sobre a cidade. O painel Qi Mercado, lançado nesta quarta-feira (4) em São Luís, é uma ferramenta de pesquisa contínua que reúne dados locais sobre hábitos de consumo, mídia e comportamento da população. Embora o projeto surja para atender agências de comunicação e empresas, a natureza das informações coletadas ultrapassa o campo comercial.
A plataforma entrega dados, por exemplo, sobre onde a população busca atendimento de saúde, como utiliza o transporte público, que espaços frequenta, quais tecnologias adota e como consome mídia e lazer. Transporte e saúde são áreas diretamente ligadas a direitos básicos, enquanto padrões de deslocamento e ocupação de espaços tocam em questões de desenvolvimento urbano. Já hábitos de mídia e lazer podem refletir desigualdades sociais e transformações culturais. São informações que, embora voltadas ao planejamento empresarial, constroem um retrato indireto de como a cidade vive e se organiza.
É o que pode ser observado, a partir dos dados, no comportamento de consumo, que revela prioridades econômicas das famílias e padrões culturais que podem impactar políticas públicas. Já o avanço das plataformas digitais entre jovens, citado pelos fundadores e sócios da Qi Mercado, Peter Vieth e Felipe Ladeira, durante a apresentação da ferramenta, vai além do mercado audiovisual e aponta para transformações no acesso à cultura, na educação informal e nas formas de sociabilidade.
É também o caso do dado de que 46,99% da população de São Luís utiliza ônibus como principal meio de transporte, informação que ganha relevância em uma semana marcada pela greve dos rodoviários, que afeta cerca de 700 mil usuários na região metropolitana. O dado pode interessar tanto a uma montadora que planeja campanha publicitária quanto a gestores que avaliam a cobertura do transporte público.

O levantamento sobre educação segue a mesma lógica. Entre os que pagam escola particular (30,34% da amostra), 74,4% apontaram a qualidade do ensino como principal critério, acima de preço ou localização. Assim, a informação serve ao mercado educacional, mas também pode indicar o que famílias ludovicenses valorizam quando têm poder de escolha.
“A pesquisa não é focada só na parte comercial. A gente também levanta informações que podem ser úteis para a gestão e para entender o cotidiano das pessoas”, enfatiza Peter.
Na prática, se ampliado o potencial de leitura social, os dados podem ter aplicações além do mercado e facilitar a formulação de políticas públicas e a compreensão da capital maranhense sobre si mesma.
É como no caso em que os dados revelam comportamentos econômicos com implicações sociais. O interesse em empreender, declarado por 37,83% dos entrevistados, com 41,03% desses mirando o setor de alimentação, por exemplo, pode refletir tanto vocação gastronômica local quanto busca por alternativas de renda. Já o levantamento de que 33,1% dos ludovicenses apostaram em plataformas de apostas esportivas ao menos uma vez no último ano levanta questões sobre o alcance desse mercado na cidade, tema que tem gerado debate nacional sobre endividamento, regulação e ludopatia, o vício em jogos de azar.
Segundo Peter, a iniciativa surgiu a partir de uma lacuna histórica na produção de informações locais. “Existia uma demanda no mercado aqui por dados específicos de São Luís que a gente não tinha. Muitas decisões eram tomadas com base em pesquisas feitas em outras capitais, como Fortaleza ou Recife, mas a cultura e a forma de consumo são diferentes”, afirma.
De acordo com os responsáveis pela pesquisa, o desenvolvimento e a coleta dos dados começaram há cerca de seis anos, com metodologia baseada em amostragem domiciliar e critérios demográficos para representar a cidade. A empresa afirma seguir normas alinhadas ao Fórum de Autorregulação do Mercado Publicitário, antigo CENP (Conselho Executivo das Normas-Padrão). A entidade, fundada em 1998 após a desregulamentação do setor publicitário pelo governo federal, estabelece padrões técnicos e éticos para agências e fornecedores de dados de mídia no Brasil.
Parte dos dados está disponível gratuitamente no site qimercado.com.br, como contrapartida ao apoio institucional garantido à plataforma pelo Sebrae-MA (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Maranhão).