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Mães de crianças com microcefalia denunciam abandono e falta de resposta da Prefeitura de São Luís

Famílias cobram transporte adaptado, descentralização de terapias e acessibilidade urbana. Gestão municipal não informa quantas crianças são atendidas
Mulher adulta, identificada como Giuliana Dominices, está sentada em um sofá dentro de uma residência. Ela segura nos braços a filha, uma criança com deficiência, reclinada sobre seu corpo. Ambas estão em ambiente doméstico.
Mães relatam que compromissos assumidos pelo prefeito em 2024 não avançaram e que demandas seguem sem encaminhamento pela administração municipal Camila Rodrigues/Atual7
Direitos Humanos Infância e Juventude

Em dezembro de 2024, mães de crianças com microcefalia associada ao vírus zika foram recebidas por Eduardo Braide (PSD) na sede da Prefeitura de São Luís. Na ocasião, segundo os relatos e vídeos obtidos pelo Atual7, o prefeito ouviu as demandas das famílias, se colocou de forma sensível, orientou que esperassem ele anunciar sobre o encontro nas redes sociais e prometeu manter reuniões periódicas para acompanhar as necessidades das crianças e encaminhar soluções às secretarias responsáveis. Quase um ano e dois meses depois, as mães afirmam que o compromisso não saiu do papel.

Uma das mães ativistas da causa, Giuliana Dominices Rocha, de 25 anos, relata que após a reunião inicial apenas as demandas de fornecimento de fraldas e alimentação especial foram atendidas, mas ainda assim de forma desigual entre as famílias. “Ele nos recebeu, ouviu, se colocou como pai e prometeu que sentaria com a gente de três em três meses. A gente acreditou”, afirma.

Segundo ela, desde março de 2025, os pedidos para agendar novas reuniões com o prefeito passaram a ser ignorados, e a situação chegou ao limite na noite de quarta-feira (4), durante a inauguração de uma quadra poliesportiva no Residencial Paraíso, bairro de São Luís localizado na região Itaqui-Bacanga.

Na ocasião, Braide chegou ao local sorrindo para as câmeras e, ao olhar as crianças, parou para fotos. Contudo, quando foi abordado por Giuliana, mãe de Jade Helena, de 9 anos, uma criança com paralisia cerebral e microcefalia, a reação foi outra. Ela cobrou do prefeito a reunião prometida em 2024 para tratar de demandas. Braide respondeu que ela e outras mães procurassem a secretária responsável. Giuliana retrucou que já havia feito isso diversas vezes sem retorno e que estavam mentindo para as famílias. O prefeito balançou a cabeça negativamente, deu as costas enquanto ela ainda falava e entrou na quadra. Ao se afastar, voltou a sorrir para fotos e a acenar para o público presente enquanto as mães ainda aguardavam uma resposta. O fato foi gravado pelas mães e publicado nas redes sociais.

“Ele me cozinhou um ano. Vai me cozinhar mais um, dois, o tempo que for preciso”, lamenta a mãe. Ela mostrou ao Atual7 conversas no aplicativo de WhatsApp com uma pessoa identificada como Luciene, que seria do cerimonial da prefeitura, para confirmar o relato.

O episódio da última quarta foi apenas o mais recente de uma série de frustrações. Em outubro de 2025, mães e crianças com paralisia cerebral e microcefalia passaram o dia inteiro no Palácio de La Ravardière, prédio do Executivo municipal no Centro de São Luís, aguardando atendimento que nunca veio.

“Chegamos às nove da manhã com nossos filhos e saímos às cinco e meia da tarde. Foi humilhante. Em nenhum momento o prefeito tentou nos ouvir”, conta Giuliana.

Dalinajara Cutrim Lopes, de 31 anos, mãe de Gabriel, de 10 anos, criança com microcefalia, confirma que o grupo sequer teve acesso imediato ao prédio. “Nós chegamos pela manhã. Não queriam nem deixar a gente entrar, queriam deixar a gente no sol”, relata.

Apenas após insistência as mães conseguiram entrar no prédio da prefeitura, ainda assim sem serem atendidas. “Ficamos num chá de cadeira. A reunião não aconteceu”, disse. Nenhum secretário resolveu a situação e o prefeito não apareceu.

“Não agendaram nova data. Simplesmente ignoraram.”

Dalinajara Cutrim | mãe de Gabriel, de 10 anos, criança com microcefalia, sobre tentativa de reunião na prefeitura

As crianças com microcefalia têm direitos garantidos por legislação federal e municipal. A Constituição estabelece, em seu artigo 227, que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à saúde, à dignidade e ao respeito, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência. O Estatuto da Pessoa com Deficiência assegura atendimento prioritário, acessibilidade e reabilitação para pessoas com deficiência. Já o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) prevê, no artigo 11, atendimento integral à saúde da criança pelo SUS (Sistema Único de Saúde), garantindo acesso universal e igualitário. Em 2020, o governo federal instituiu ainda pensão especial para crianças com microcefalia decorrente do zika, reconhecendo a necessidade de amparo a essas famílias.

Procurado desde a última quinta-feira (5) para se manifestar sobre as denúncias, Eduardo Braide não retornou o contato. Em e-mail enviado ao gabinete do prefeito, o Atual7 questionou se a reunião mencionada pelas mães no Residencial Paraíso chegou a ser oficialmente agendada, por quem teria sido marcada e por que não ocorreu. Também perguntou, sem resposta, qual seria a secretária citada por ele quando começou a ser cobrado, qual pasta municipal centraliza o atendimento às crianças com microcefalia, quantas estão cadastradas na rede municipal, se existe programa específico para esse público e qual o volume de recursos investidos.

Mulher adulta usa camiseta rosa e óculos. Ela está em pé, dentro de um cômodo residencial, ao lado de uma criança sentada em uma cadeira de rodas adaptada. A criança usa babador azul e tem a cabeça apoiada no encosto da cadeira.
Dalinajara Cutrim, mãe de Gabriel, é uma das mulheres que articulam a mobilização de famílias atípicas na capital Camila Rodrigues/Atual7

A Semus (Secretaria Municipal de Saúde) afirmou em nota que mantém contato permanente com mães de crianças com microcefalia por meio de um grupo direto de acompanhamento, “no qual são compartilhadas informações, alinhadas demandas e agendadas reuniões regulares”, e que fornece dietas especiais entregues no domicílio, fraudas, cadeira de rodas e cadeira de banho, “conforme a necessidade de cada caso”.

“Também são disponibilizadas terapias e acompanhamento multiprofissional na rede municipal”, disse.

Giuliana confirma a existência do grupo informado pela Semus, mas ressalta que há limites no atendimento. “O grupo existe, sim. Eles acompanham, recebem as demandas e tentam fazer dentro do possível. Mas não se resume só à Secretaria de Saúde. A gente não tem diálogo com Educação, Transporte, Infraestrutura. A Saúde caminha, mas em passinho de formiguinha”, afirma.

Segundo as mães ouvidas pelo Atual7, as necessidades das famílias para as crianças exigem articulação entre secretarias. Entre as reivindicações relatadas por elas estão transporte porta a porta para pessoas com deficiência, descentralização das terapias para os bairros, políticas de geração de renda para mães atípicas, acessibilidade urbana e punição a motoristas de aplicativo que se recusam a transportar cadeirantes.

“Minha filha não vive de comer asfalto nem festa. Ela precisa de direitos.”

Giuliana Dominices | mãe de Jade Helena, de 9 anos, criança com paralisia cerebral e microcefalia associada ao vírus zika

Sobre o fornecimento de dietas especiais entregues no domicílio, segundo ela, a oferta é parcial. “Algumas recebem, sim. Mas não são todas. Teve mãe que foi lá e não recebeu”, disse, relatando ainda dificuldades de diversas famílias para acesso à cadeiras de banho. “Conseguiram para cinco crianças, por meio de parceria com a Apae, mas o restante ainda não saiu”, explicou.

Ainda de acordo com a mãe, o acesso às terapias e ao acompanhamento multiprofissional é extremamente limitado. “Só três crianças são atendidas no Eugênia Brandão. As outras não têm acesso. A reforma nunca termina”, relatou.

As cobranças à gestão municipal, afirma Giuliana, não tem motivação partidária. “Nossos filhos não têm partido político. A nossa política é por eles”, disse, após relembrar já ter feito as mesmas exigências ao governador Carlos Brandão (sem partido), em mais de uma ocasião. Segundo ela, como as famílias estão em busca de solução, Eduardo Braide ainda pode reverter o desgaste ampliado com o episódio no Residencial Paraíso. “É só receber, ouvir e encaminhar. Quando existe diálogo, as coisas caminham”, concluiu.

Advogada e estudante de Jornalismo, atua na cobertura de direitos das mulheres, cultura e temas ligados à cidadania. Está em formação em jornalismo de dados, área que pretende integrar à apuração para aprofundar investigações e mapear políticas públicas, especialmente nas áreas de diversidade, inclusão e produção cultural.

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