REPORTAGEM · VIDA PúBLICA

Valor liberado por Rachid para Braide gastar no Carnaval é 3,5 vezes maior que orçamento para a festa em 2026

Desembargador do TJ-MA autorizou R$ 22,2 milhões em créditos quando despesas já estavam contratadas e parcialmente pagas. Prefeitura liquidou quase R$ 1 milhão em despesas para este ano ainda em 2025, antes dos serviços serem prestados

Gestão Eduardo Braide já comprometeu R$ 28,7 milhões dos recursos da Prefeitura com o Carnaval, valor mais alto até que o autorizado pelo desembargador maranhense Divulgação/Prefeitura de São Luís
Transparência e Controle Social

O desembargador Jorge Rachid, do Tribunal de Justiça do Maranhão, autorizou nesta sexta-feira (13) a Prefeitura de São Luís a abrir R$ 22,2 milhões em créditos para o Carnaval de 2026. O valor é 3,5 vezes maior que os R$ 6,3 milhões apresentado por Eduardo Braide (PSD) à Câmara de vereadores na proposta orçamentária para a festa neste ano.

A decisão relâmpago de Rachid foi assinada às 12h16, horas antes do início da programação oficial na Cidade do Carnaval, que começa hoje, e menos de 18 horas depois de a gestão municipal protocolar o pedido. O magistrado acolheu o argumento de que a estrutura do evento já estava montada e de que eventual cancelamento, naquele ponto, custaria mais aos cofres públicos do que a realização.

Levantamento do Atual7 com auxílio de inteligência artificial a partir do cruzamento de dados que podem ser encontrados no Portal da Transparência e no Diário Oficial do Município revela que o gasto com o Carnaval em 2026 deve ir além do autorizado pelo desembargador do TJ-MA. Até o momento, Braide já comprometeu R$ 28,7 milhões com o evento, distribuídos tanto no orçamento de 2026 quanto no de 2025, inclusive com parte dos recursos já empenhado e liquidado antes de os serviços serem prestados. Em tese, o prefeito pode ter cometido irregularidade orçamentária passível de configurar ato de improbidade administrativa. Cabe ao Ministério Público estadual e ao TCE-MA (Tribunal de Contas do Estado do Maranhão) investigar.

O Atual7 seguiu o caminho do dinheiro e verificou que nos últimos dias de 2025, entre 23 e 31 de dezembro, a Secult (Secretaria Municipal de Cultura) de São Luís, então sob o comando de Maurício Itapary, assinou dezenas de contratos para a festa e empenhou as primeiras parcelas no orçamento daquele ano.

Empenhar, na administração pública, é reservar o recurso e se comprometer a pagar. De acordo com a rota do recurso, o cantor de samba e pagode Péricles teve metade de seu cachê de R$ 500 mil empenhada em dezembro para um show que faria em fevereiro. O DJ e cantor Pedro Sampaio, metade dos R$ 700 mil. O mesmo caminho foi seguido pela Turma do Pagode, Alexandre Pires, BaianaSystem e dezenas de outros artistas. No total, R$ 6,2 milhões em despesas do Carnaval de 2026 foram registrados no exercício financeiro de 2025.

Eduardo Braide, de camiseta amarela do Carnaval de São Luís, faz gesto de coração com as mãos acima da cabeça no palco da Cidade do Carnaval. Ao lado dele, Graziela Braide de top prateado segura um microfone e sorri.
Braide no palco da Cidade do Carnaval em 2024, quando a entidade contratada pela prefeitura para executar a festa funcionava em uma pré-escola do bairro Cidade Olímpica; a cada ano a entidade muda, o modelo não Divulgação/Prefeitura de São Luís

A Câmara Municipal, embora obrigada pela Lei Orgânica e por seu próprio regimento a votar o orçamento até o fim de cada ano, não havia sequer iniciado a apreciação da proposta de 2026 quando esses contratos foram assinados. A votação só aconteceu na última quarta-feira (11), ainda em primeiro turno, quatro dias antes do Carnaval, e com a segunda e última votação prevista para ocorrer apenas depois do recesso momesco. Sem orçamento aprovado, Eduardo Braide passou a operar a partir de janeiro por duodécimos, sistema que limita o gasto mensal a um doze avos do autorizado no ano anterior. Os R$ 6,2 milhões do Carnaval, porém, já estavam registrados no orçamento de 2025 e não entraram nessa conta. E do montante, ao menos R$ 986,5 mil foram também liquidados logo no ano passado.

Liquidar, na administração pública, é o passo seguinte ao empenho: é quando um servidor atesta, com assinatura em documento formal, que o serviço contratado foi executado. É o que autoriza o pagamento. De acordo com os dados da própria prefeitura, a Secult liquidou ainda em dezembro despesas de seis escolas de samba (R$ 62,5 mil cada), da Associação Maranhense de Blocos Carnavalescos (R$ 449 mil) e da Nabimart Produções (R$ 100 mil). Nenhuma escola havia desfilado. Nenhum bloco havia se apresentado. O Carnaval de 2026 não tinha começado. Na prática, a gestão municipal assinou um atesto de execução para serviços que não existiam.

Na virada do ano, a gestão Eduardo Braide inscreveu os R$ 6,2 milhões como Restos a Pagar, instrumento que permite transferir obrigações de pagamento de um exercício para outro. O pagamento efetivo passou a ser feito agora em 2026. Até o início da tarde desta sexta, R$ 3,8 milhões já haviam sido pagos por essa via, incluindo as escolas de samba, blocos e artistas do pré-Carnaval.

No início deste ano, entre janeiro e fevereiro, ainda sob duodécimos, a prefeitura empenhou mais R$ 22,5 milhões, incluindo as segundas parcelas dos contratos de dezembro e novas contratações. Quando a PGM (Procuradoria-Geral do Município) pediu a liberação dos R$ 22,2 milhões ao TJ-MA, boa parte do Carnaval de 2026 já estava paga e a estrutura do evento já estava montada. O cenário que o desembargador descreveu na decisão, de estrutura montada e contratos firmados, foi construído pela própria gestão Braide nas semanas anteriores, sem a autorização orçamentária que só veio com a decisão do desembargador.

O Atual7 enviou e-mails ao gabinete de Eduardo Braide e à Secult questionando a composição dos gastos, os critérios de contratação dos artistas, o papel da entidade executora do evento, a razão da diferença entre o orçamento proposto à Câmara e o efetivamente comprometido, e quais documentos de atesto fundamentaram a liquidação dos quase R$ 1 milhão em dezembro de 2025 para serviços que foram ou ainda serão executados no Carnaval de 2026. Não houve retorno.

Multidão de foliões vista de costas diante do palco principal da Cidade do Carnaval de São Luís, iluminado em tons de vermelho e laranja, com telões laterais exibindo "Carnaval São Luís" e uma artista se apresentando.
Palco da Cidade do Carnaval de São Luís, com estrutura de produção do evento executada por instituto privado que recebeu R$ 15,35 milhões da Prefeitura de São Luís Divulgação/Prefeitura de São Luís

Ao rastrear o caminho do dinheiro, o Atual7 identificou no Diário Oficial mais de 30 contratos com artistas nacionais para o Carnaval, todos por inexigibilidade de licitação, somando até o momento quase R$ 15 milhões. O cachê mais caro é o da dupla Jorge e Mateus, R$ 1,5 milhão por uma apresentação, publicado no Diário Oficial apenas hoje, poucas horas antes da realização da apresentação dos sertanejos. A cantora Claudia Leitte aparece com R$ 990 mil, seguida de Pablo (R$ 750 mil), Pedro Sampaio, Tony Salles e Belo (R$ 700 mil cada), Alexandre Pires (R$ 600 mil) e Manu Batidão (R$ 550 mil), entre outros.

Além disso, há um desequilíbrio na distribuição dos recursos entre as atrações locais e as de fora. O cachê de Jorge e Mateus, por exemplo, sozinho, é maior do que a prefeitura destinou a todas as dez escolas de samba de São Luís somadas. Embora tradicionais do Carnaval da capital, escolas como Turma da Mangueira, Flor do Samba e Favela do Samba receberão R$ 125 mil cada para desfilar na Passarela do Samba Chico Coimbra, nos próximos dias 19 e 22 de fevereiro. Mesmo juntas, as dez escolas totalizam R$ 1,25 milhão, R$ 250 mil a menos do que a dupla sertaneja vai levar por uma apresentação.

A própria gestão Braide reconhece a desproporção em seus documentos de planejamento. O Plano Plurianual 2026-2029, instrumento que define as metas da gestão para os próximos quatro anos, projeta que 62% das contratações artísticas do Carnaval serão de artistas locais. Em número, as atrações locais são maioria. Em dinheiro, não. Dos R$ 16,8 milhões em contratos identificados pelo Atual7 no Diário Oficial para este ano, R$ 14,42 milhões, ou 85%, foram para artistas de fora. Escolas de samba e blocos carnavalescos, que deveriam garantir identidade ao Carnaval de São Luís, ficaram com os 15% restantes.

Esses R$ 16,8 milhões, porém, são apenas os contratos de artistas e agremiações que a reportagem localizou no Diário Oficial. O Carnaval tem outro custo, menos visível e canalizado por um caminho diferente. É o caso do Termo de Colaboração nº 23/2026, firmado entre a Secretaria de Cultura de São Luís e o Imaps (Instituto Maranhense de Atenção e Proteção Social), no valor de R$ 15,35 milhões. É essa entidade, uma organização privada sem fins lucrativos com endereço de registro no bairro Vinhas, que executa a produção do evento, respondendo por infraestrutura, logística, sonorização e iluminação. Dados do Portal da Transparência mostram que ao menos duas parcelas desse dinheiro foram repassadas: R$ 444 mil em 28 de janeiro e R$ 14,9 milhões nesta sexta-feira.

Em 2025, função idêntica coube ao IMDS (Instituto Movimentação para o Desenvolvimento Social), registrado no Cohajap, também na capital, que recebeu R$ 15,38 milhões. Nos dois anos, mais da metade de todo o dinheiro público do Carnaval passou por uma única entidade privada. Algo semelhante já havia acontecido em anos anteriores, quando a entidade ludovicense parceira da gestão Braide era a Juju e Cacaia Tu És Uma Benção, instituto que funciona em uma pré-escola localizada no bairro Cidade Olímpica.

Metodologia

A reportagem usou inteligência artificial para cruzar 106 edições do Diário Oficial de São Luís e 765 documentos, além de dados de execução orçamentária (empenhos, liquidações e restos a pagar) da Secretaria Municipal de Cultura no Portal de Transparência, nos exercícios 2025 e 2026. Também foram consultados a PLOA (Proposta de Lei Orçamentária Anual) de 2026, o PPA (Plano Plurianual) 2026-2029 e autos públicos dos processos nº 0808137-71.2026.8.10.0001 e nº 0804264-66.2026.8.10.0000, do TJMA.

Fundador-Editor do Atual7. Especializado em jornalismo investigativo e de dados, utiliza a LAI para expor corrupção, abusos e violações no setor público e privado, fortalecendo o direito da sociedade à informação e a responsabilização de quem atenta contra o interesse público.

1 comentário

  1. Conde

    Na minha opinião, esse valor turbinado não é coincidência. Afinal, neste ano há muitos ‘interessados’ para dividir a fatia desse bolo orçamentário. É curioso como o dinheiro público, quando inflado, parece sempre encontrar mais bocas do que justificativas. No fim das contas, o espetáculo não está só na avenida, mas também nos bastidores — e aí o enredo é sempre o mesmo: quanto maior o valor, maior a lista de beneficiados.

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