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Celular de apontado como operador de Curió será enviado ao Pará para quebra de criptografia

Cooperação interestadual em aparelho apreendido com Eustáquio Campos foi solicitada pelo Gaeco. Neurocirurgião está preso desde a deflagração da Operação Tântalo II
Homem de barba, cabelo castanho penteado para trás, vestindo blazer bege claro sobre camisa rosa, sorrindo diante de uma janela de vidro com vegetação ao fundo.
Neurocirurgião é apontado pelo Gaeco como integrante do núcleo financeiro da organização criminosa que atuava na Prefeitura de Turilândia Reprodução
Corrupção e Integridade Pública

A desembargadora Graça Amorim, do Tribunal de Justiça do Maranhão, autorizou o envio de um aparelho celular apreendido durante a Operação Tântalo II ao Ministério Público do Pará, com o objetivo de viabilizar a extração de dados do dispositivo.

Assinada na última sexta-feira (27), a decisão atende a um pedido do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas) do MP-MA após os órgãos técnicos do estado declararem que não possuem capacidade para realizar o serviço.

O celular pertence ao médico neurocirurgião Eustáquio Diego Fabiano Campos, preso preventivamente desde a deflagração da operação, em dezembro de 2025. Segundo o Ministério Público maranhense, tanto o Laboratório de Tecnologia Contra a Lavagem de Dinheiro do órgão quanto o Icrim (Instituto de Criminalística) de São Luís esbarraram em camadas de segurança e criptografia do aparelho.

A solução encontrada pelo Gaeco foi solicitar a cooperação interestadual com o Grupo de Atuação Especial de Inteligência e Segurança Institucional (GSI) do Ministério Público do Pará, que dispõe da ferramenta forense GrayKey, um equipamento desenvolvido por uma empresa americana, de uso restrito a órgãos de segurança pública e persecução penal, projetado para superar as proteções de dispositivos da Apple.

Na decisão, a relatora autorizou as equipes do MP do Pará a extraírem o conteúdo integral do dispositivo, incluindo mensagens de texto e áudio, conversas em WhatsApp e Telegram, e-mails, registros financeiros, mídias e dados de geolocalização.

A relevância do aparelho para a investigação se explica pelo papel atribuído a Eustáquio Campos no esquema criminoso. De acordo com as investigações, ele integra o núcleo financeiro e exerceu dupla função na organização criminosa que atuava em Turilândia, primeiro como agiota do prefeito afastado também preso, Paulo Curió (União Brasil), financiando-o com empréstimos a juros antes do início dos desvios em larga escala, e depois como operador ativo de lavagem de capitais.

O caso mais expressivo, segundo o Gaeco, é o de uma casa no bairro do Calhau, em São Luís, avaliada em R$ 3,7 milhões, registrada em nome de Eustáquio Campos e cuja entrada de R$ 700 mil foi paga por ele ao vendedor, conforme comprovante de transferência bancária identificado pela investigação. Outra residência, avaliada em R$ 1,6 milhão no município de Turilândia, foi registrada em nome de Lucas Diego Fabiano Ferreira, irmão de Eustáquio Campos, com a escritura lavrada em Vargem Grande, a 318 quilômetros de Turilândia, em estratégia que, segundo o MP-MA, visava dificultar o rastreamento.

Maços de dinheiro empilhados sobre mesa durante contagem em operação do Gaeco do Ministério Público do Maranhão.
Gaeco apreendeu quase R$ 2 milhões em endereços ligados aos investigados. Divulgação/MP-MA

Além disso, análise bancária realizada pelo Gaeco identificou que Eustáquio Campos recebeu R$ 905,5 mil em transferências fracionadas provenientes de Wandson Barros, apontado como operador financeiro do esquema, e de suas empresas WJ Barros e Agromais Pecuária. Na direção oposta, remeteu R$ 1 milhão à Agromais, evidenciando o que os investigadores classificam como trânsito financeiro recíproco típico de operadores do esquema. Anotações apreendidas na residência do prefeito indicam ainda, conforme a denúncia, pagamentos que totalizam R$ 4,23 milhões, com referência a “5%”, o que o Ministério Público interpreta como remuneração pelos empréstimos.

Ainda de acordo com as investigações, diálogos interceptados indicam que Eustáquio Campos exercia controle direto sobre os procedimentos de lavagem. Em conversa registrada no dia da lavratura de uma escritura, Wandson Barros teria informado ao prefeito que Eustáquio Campos exigia a especificação da conta recebedora na procuração, o que, segundo o MP-MA, revela supervisão minuciosa das formalidades usadas nas manobras de dissimulação patrimonial.

A Operação Tântalo II investiga um esquema que, segundo o Ministério Público, desviou R$ 56,3 milhões dos cofres da Prefeitura de Turilândia por meio de fraudes em licitações, peculato, corrupção e lavagem de capitais. A organização criminosa, segundo o Gaeco, era liderada por Paulo Curió e se estruturava em núcleos político, financeiro, operacional e empresarial, envolvendo familiares do prefeito, servidores municipais, empresários e a totalidade dos vereadores da Câmara Municipal.

Fundador-Editor do Atual7. Especializado em jornalismo investigativo e de dados, utiliza a LAI para expor corrupção, abusos e violações no setor público e privado, fortalecendo o direito da sociedade à informação e a responsabilização de quem atenta contra o interesse público.

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