O prefeito afastado de Turilândia, Paulo Curió (União Brasil), preso desde dezembro de 2025 e com todos os pedidos de liberdade negados tanto pelo TJ-MA quanto pelo STJ, teve a prisão preventiva fundamentada em dois elementos que, combinados, sustentam o argumento da Justiça de que o esquema investigado não parou mesmo após a deflagração da fase inicial da Operação Tântalo.
De acordo com a desembargadora Graça Amorim, relatora da investigação, o primeiro é a abertura de uma nova empresa por Paulo Curió após a primeira fase da operação. O segundo é a vigilância que integrantes da suposta organização criminosa exerciam sobre o terminal do ferryboat que dá acesso à Baixada Maranhense para identificar a chegada de policiais e promotores à região.
Os dois fatos aparecem em sequência na decisão da magistrada que autorizou a deflagração da Operação Tântalo II, em dezembro do ano passado. O primeiro está descrito no item sobre “continuidade delitiva e planos futuros” e o segundo no item sobre “persistência delitiva e monitoramento informal de atividade policial pelos investigados”. Na prática, servem para demonstrar que o grupo liderado por Paulo Curió não apenas continuou atuando após a primeira fase da Tântalo, em fevereiro de 2025, como desenvolveu estratégias para se antecipar à ação do Estado.

A empresa é a Paraíso Verde Agropecuária, registrada em 8 de março de 2025, aproximadamente duas semanas após as buscas e apreensões que marcaram a primeira fase. Paulo Curió e a primeira-dama, Eva Curió, aparecem em dados abertos da Receita Federal como sócios-administradores, com capital social de R$ 350 mil.
O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas) do Ministério Público estadual aponta que a abertura da nova empresa durante as investigações demonstra a intenção da organização criminosa de manter o esquema de “venda de notas fiscais”, prática em que empresas contratadas simulam a prestação de serviços e devolvem a maior parte do dinheiro ao líder do esquema e seus aliados. A denúncia oferecida pelo procurador-geral de Justiça, Danilo de Castro, em janeiro de 2026, contra o núcleo político-familiar do esquema reforça essa leitura. Segundo o MP-MA, toda a parte contábil do prefeito e de Eva era conduzida pessoalmente por Wandson Barros, apontado como operador financeiro da organização, que recebia 3% de comissão sobre cada transação.
A desembargadora considerou ainda que a criação da Paraíso Verde representava uma provocação direta ao Estado. Na decisão, escreveu que a circunstância reforçava a disposição de Paulo Curió e Wandson Barros em manter e expandir as atividades criminosas e que, caso permanecessem em liberdade, a investigação seria inviabilizada e o dinheiro público continuaria sendo desviado.
Esse dado foi somado a outro, extraído de conversas telefônicas captadas com autorização judicial. Em diálogos de dezembro de 2024, Paulo Curió e Wandson Barros teriam planejado desviar R$ 2,5 milhões por mês em “sobras” no segundo semestre de 2025, conforme o Atual7 já havia detalhado na reportagem sobre os dois meses de prisão do prefeito. A meta, segundo as interceptações, estava condicionada à existência de contratos suficientes para alimentar o esquema.
Já a respeito da vigilância que a organização criminosa exercia sobre quem chegava à região, de acordo com o Gaeco, as interceptações revelaram que membros da organização monitoravam o terminal do ferryboat para se antecipar a eventuais operações policiais. Os diálogos também indicam que o grupo consultava placas de caminhonetes para verificar se os veículos pertenciam a órgãos de segurança pública. Para a desembargadora, essas condutas demonstram que a organização exercia uma forma de controle territorial e tentava interferir nas investigações.
A desembargadora conectou os dois elementos ao analisar se havia necessidade concreta de manter os investigados presos. No aspecto da garantia da ordem pública, apontou o risco de que os acusados continuem cometendo crimes se estiverem soltos; que a organização manteve um padrão contínuo de desvios ao longo de quatro anos; e que a abertura de uma nova empresa durante as investigações demonstrava que esse padrão não seria interrompido sem a prisão. No aspecto da instrução criminal, que diz respeito à proteção das provas e testemunhas, concluiu que o poder político de Curió à frente do Executivo municipal permitia influenciar testemunhas e destruir evidências, e citou o monitoramento de veículos policiais como exemplo concreto dessa capacidade de obstruir a Justiça.

A Paraíso Verde Agropecuária foi incluída entre as 33 pessoas físicas e jurídicas que tiveram bens bloqueados judicialmente. As medidas patrimoniais alcançam o valor de R$ 56,3 milhões, montante que o Gaeco estima ter sido desviado dos cofres de Turilândia entre 2021 e 2025.
Com a prisão preventiva e o afastamento do prefeito, a prisão domiciliar da vice-prefeita Tanya Mendes (PRD) e a detenção de todos os 11 vereadores do município, Turilândia ficou sem comando político. Desde 12 de fevereiro, o município está sob intervenção estadual, administrado pelo defensor público Thiago Josino, nomeado pelo governador Carlos Brandão (sem partido).
A defesa de Paulo Curió, em pedido de habeas corpus no mesmo processo, argumentou que as acusações se baseiam em suposições e que não há prova de contemporaneidade, ou seja, de que os supostos crimes continuavam acontecendo no momento da prisão. Sobre a Paraíso Verde, a defesa sustentou que o Ministério Público se limitou a apontar a criação da empresa sem demonstrar que ela efetivamente chegou a firmar contratos com a prefeitura. Conforme o Atual7 noticiou, esse pedido foi negado pela desembargadora e, posteriormente, pelo ministro Sebastião Reis Júnior, do STJ, que também rejeitou a liminar que buscava a soltura do prefeito.