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Retenção de emendas por Eduardo Braide ao Aldenora Bello supera R$ 20 milhões

Além dos R$ 12,5 milhões já registrados no Portal da Transparência, outros 13 vereadores destinaram emendas que a Prefeitura de São Luís sequer incluiu no orçamento
Homem de camiseta azul com a frase "Cazumbê-se São Luís - MA" e chapéu de carnaval colorido fala ao microfone em palco decorado com listras coloridas
Vereadores citam recursos destinados à festa como evidência de que a não execução das emendas ao hospital foi uma escolha deliberada de Eduardo Braide Divulgação/Prefeitura de São Luís
Corrupção e Integridade Pública Orçamento e Gastos Públicos Saúde

O volume de emendas parlamentares destinadas desde o ano passado ao Hospital do Câncer Aldenora Bello, mas retidas pelo prefeito Eduardo Braide (PSD), supera o valor de R$ 20 milhões. É o que revela cruzamento feito pelo Atual7 entre os dados do Portal da Transparência da Prefeitura de São Luís e os documentos da representação feita por 25 dos 31 vereadores da capital ao Ministério Público do Maranhão.

Em reportagem publicada no último dia 23 de fevereiro, o Atual7 mostrou que R$ 12,5 milhões em emendas de 14 vereadores ao hospital, incluindo parlamentares da base de Braide, estavam empenhados com pagamento zerado. Agora, a análise dos documentos revela uma segunda camada de retenção, com outros 13 vereadores que também destinaram emendas ao Aldenora Bello, por meio de ofícios à Semap (Secretaria Municipal de Assuntos Políticos) e processos no sistema eletrônico da prefeitura, mas esses valores sequer foram incluídos no orçamento municipal.

São dois níveis de travamento. No primeiro, a prefeitura reconheceu formalmente as emendas, empenhou os valores, emitiu decretos, publicou pareceres jurídicos da Semus (Secretaria Municipal de Saúde), mas não pagou. No segundo, sequer completou o ciclo administrativo: recebeu os ofícios, protocolou no sistema eletrônico e parou ali.

As emendas em questão são impositivas, com execução obrigatória pelo Executivo por força da LOM (Lei Orgânica do Município). O próprio procurador-geral de Justiça, Danilo de Castro, em reunião com os vereadores sobre o caso, reconheceu que o pagamento é um direito constitucional do parlamento.

É o caso da vereadora Thay Evangelista (União Brasil), que em 19 de novembro do ano passado destinou R$ 600 mil à Fundação Antônio Jorge Dino, mas que até hoje não teve o empenho gerado no Portal da Transparência. A mesma situação ocorre com emendas de R$ 1,1 milhão destinadas ao Aldenora Bello pelo vereador Wendell Martins (Podemos); R$ 1,7 milhão, de Cléber Verde Filho (MDB); R$ 1,7 milhão, de Nato Júnior (PSB); R$ 1,3 milhão, de Flávia Berthier (PL); e R$ 1,4 milhão, de Raimundo Júnior (Podemos), dentre outras emendas parlamentares ao hospital também retidas. Todas protocoladas, mas até o momento sem empenho.

Mesmo com a apuração aberta pelo Ministério Público, o quadro no Portal da Transparência permanece praticamente inalterado. Dos R$ 12,5 milhões em restos a pagar, o pagamento continua zerado em todos os empenhos registrados. A única movimentação foi a liquidação de R$ 400 mil da emenda da vereadora Professora Magnólia (União Brasil), etapa burocrática que não resultou em repasse efetivo ao hospital.

Grupo de dez pessoas posa sorrindo em corredor com parede verde à direita, onde há quadros pequenos. Ao centro, uma mulher de blusa azul clara faz sinal de positivo com as duas mãos. À sua esquerda, um homem de camisa azul clara segura um documento oficial com brasão. Os demais vestem roupas casuais e sociais em tons escuros.
Vereadores de São Luís na Fundação Antônio Jorge Dino, em novembro de 2025, quando oficializaram a destinação de emendas para a construção da ala oncológica pediátrica do Hospital Aldenora Bello Divulgação/CMSL

Segundo dados apresentados à Câmara em outubro de 2025 pelo vice-presidente da Fundação Antônio Dino, Antônio Dino Tavares, o Aldenora Bello realiza cerca de 80% das radioterapias e 70% das quimioterapias do Maranhão, com 700 pacientes em fila de espera. O Inca (Instituto Nacional de Câncer) estima quase 300 novos casos de câncer infantil por ano no estado – e o hospital hoje não tem estrutura para atendê-los. Caso liberados, os recursos das emendas permitiriam ao hospital saltar de 23 para 90 leitos de atendimento oncológico.

Na denúncia ao MP-MA, os vereadores argumentam que a não execução das emendas não decorreu de impossibilidade financeira, mas de escolha administrativa deliberada do prefeito. Como evidência, citam os recursos destinados ao Carnaval de São Luís, o que afastaria a tese de indisponibilidade orçamentária para despesas vinculadas à saúde.

Eduardo Braide foi procurado pelo Atual7 por e-mail para explicar o motivo da retenção dos recursos ao Aldenora Bello, mas não se manifestou.

Fundador-Editor do Atual7. Especializado em jornalismo investigativo e de dados, utiliza a LAI para expor corrupção, abusos e violações no setor público e privado, fortalecendo o direito da sociedade à informação e a responsabilização de quem atenta contra o interesse público.

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