O Ministério Público do Maranhão quer a condenação do prefeito de Santa Helena, Joãozinho Pavão (MDB), e do ex-prefeito Zezildo Almeida (PTB, atual PRD) à perda da função pública e à suspensão dos direitos políticos por até 12 anos. Os dois são alvos de uma ação de improbidade administrativa por esquema de servidores fantasmas que, segundo as investigações, causou prejuízo de quase R$ 523 mil aos cofres do município.
A ação, assinada no início de fevereiro pela promotora Rita de Cássia, descreve a participação de Joãozinho e Zezildo e o que cada um dos demais envolvidos no esquema fazia enquanto recebia salário da prefeitura sem trabalhar. Boa parte sequer morava no Maranhão. Ao todo, segundo o MP-MA, eram 10 servidores fantasmas.
Everlany Silva Corrêa, professora efetiva aprovada em concurso, mora em São Luís e trabalha como influenciadora digital. Safira Roland Dias é nomeada pela prefeitura, mas mora e trabalha como farmacêutica em Porto Alegre (RS). Sua irmã, Madair Roland Dias, a substitui em sala de aula em Santa Helena há pelo menos dois anos. Wariston José Lobato Dias tem cargo efetivo de enfermeiro no município, mas mora e trabalha em São Paulo (SP). João Paulo Furtado Lopes é lotado em uma secretaria municipal, mas reside em Aparecida de Goiânia, em Goiás. Wedy Soares Pinheiro ocupa o cargo de vigia em uma creche, mas viaja com frequência e, conforme a ação, tem um terceiro exercendo suas funções e simulando presença no trabalho. Yane Dias Lobato, servidora comissionada, atua como esteticista em São Luís. Fábio Moreira de Freitas trabalha como taxista em vez de exercer suas atividades na escola onde é lotado. E o nutricionista Yann Markus Lobato Souza, contratado em 2022, recebe vencimentos do município, mas reside em outro estado.
Além destes, Adenrouse Ferreira Dias, filha da secretária municipal de Educação, Rosinelba Pereira Ferreira, tinha dispensa de frequência autorizada pela própria gestão.
A promotora Rita de Cássia afirma na ação que o MP-MA recebeu “diversas denúncias acerca da existência de servidores que não comparecem ao local de trabalho, mas recebem regularmente seus vencimentos”. Com cerca de 43 mil habitantes, Santa Helena fica na Baixada Maranhense, a 115 quilômetros de São Luís. Segundo a folha de pagamento de janeiro de 2026, obtida pelo Atual7 no Portal da Transparência da prefeitura, um professor contratado da rede municipal recebe em média R$ 1.662 brutos por mês. Com o dinheiro que as investigações estimam ter sido pago aos servidores fantasmas, seria possível pagar 329 salários mensais de professor contratado, o que equivale ao pagamento de 27 professores durante um ano inteiro.
Para o Ministério Público, o esquema só se sustentou por anos porque a prefeitura não tinha qualquer sistema de controle de frequência. A Promotoria responsabiliza por isso o atual e o ex-prefeito da cidade, que recentemente viraram adversários políticos, mas que já foram da mesma chapa.
Joãozinho Pavão foi vice-prefeito de Zezildo Almeida Júnior. Os dois se elegeram juntos em 2020. Zezildo governou Santa Helena entre 2017 e 2023. O agora adversário político assumiu na sequência. O rompimento entre eles veio a público em setembro de 2025, quando a PGM (Procuradoria-Geral do Município) de Santa Helena, já sob Joãozinho, processou Zezildo por supostas irregularidades fiscais. Agora, na ação do MP-MA sobre os servidores fantasmas, os dois aparecem juntos, já que as investigações apontam que o esquema passou pela gestão de ambos.
A promotora Rita de Cássia distingue a participação de cada um. Zezildo teria assinado documentos oficiais que mantinham o vínculo funcional de pessoas que não apareciam para trabalhar. Joãozinho foi além, segundo o MP-MA. Prints de conversas de WhatsApp reunidos pelo órgão indicam que o prefeito negociou diretamente com Everlany Corrêa a permanência dela em um regime fictício de home office que não existe na legislação municipal. Em troca, segundo a ação, Everlany daria apoio político e divulgação eleitoral. A promotora classificou a conduta como “uso da máquina pública para satisfação de interesses pessoais e eleitoreiros, facilitando o enriquecimento ilícito de terceiros com nítido desvio de finalidade”.
Rosinelba Pereira Ferreira, a secretária de Educação, também é alvo da ação. O Ministério Público afirma que ela prestou informações falsas no bojo da apuração sobre os investigados.
Para os que ocupavam cargos sem exercê-los, o órgão pede perda dos bens acrescidos ilicitamente, perda das funções públicas, suspensão dos direitos políticos por até 14 anos, multa equivalente ao acréscimo patrimonial e proibição de contratar com o poder público pelo mesmo período. Para Joãozinho Pavão, Zezildo Almeida Júnior e Rosinelba Ferreira, além da perda da função pública e suspensão dos direitos políticos por até 12 anos, os pedidos incluem multa equivalente ao dano e proibição de contratar com o poder público pelo mesmo período.
O Ministério Público também ajuizou uma ação civil pública para obrigar o município a implantar ponto biométrico para todos os servidores de Santa Helena, sejam efetivos, contratados, cedidos ou comissionados, no prazo de 30 dias.
O Atual7 procurou o prefeito Joãozinho Pavão e a secretária de Educação Rosinelba Ferreira, por meio do e-mail oficial do gabinete da prefeitura, para solicitar posicionamento sobre as acusações. Não houve resposta. Os demais alvos da ação do MP-MA não foram localizados.