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Ministério Público vê Felipe Camarão em lavagem de dinheiro, mas pede apenas afastamento

Gaeco aponta movimentações incompatíveis com a renda declarada do vice-governador e descreve rede de PMs usada para circular e ocultar valores em benefício do petista. Investigação partiu do Coaf, sob o governo Lula
Homem de cabelos escuros, vestindo paletó azul, sorri levemente em ambiente interno com bandeiras ao fundo.
PGJ aponta que dinheiro sem origem declarada circulou nas contas de PMs da segurança de Felipe Camarão e foi parar na conta do vice-governador Reprodução/Redes sociais
Corrupção e Integridade Pública

O procurador-geral de Justiça do Maranhão, Danilo de Castro, pediu o afastamento urgente do vice-governador Felipe Camarão (PT) por suspeita de ligação em um esquema de lavagem de dinheiro.

O pedido, revelado pelo blog do Luís Pablo e confirmado pelo Atual7, foi encaminhado ao Tribunal de Justiça no dia 3 de março. O novo relator do procedimento investigatório criminal 025065-750/2025 é o desembargador Sebastião Bonfim, que assumiu o caso após o desembargador Raimundo Barros se declarar suspeito.

Camarão foi procurado por e-mail, mensagem e ligação na tarde da última sexta-feira (20) e na tarde desta segunda (23), mas não respondeu à reportagem. Nas redes sociais, tem classificado o caso como “vazamento criminoso” com “objetivo eleitoreiro”.

A investigação contra o vice-governador é desdobramento de uma apuração do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) sobre fraudes em placas de táxi envolvendo policiais militares no Maranhão. Relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) apontam que ao menos dois PMs tiveram movimentações financeiras atípicas, e que boa parte desse dinheiro teria ido parar em contas bancárias de Felipe Camarão e seu entorno ou sido destinado para pagamentos pessoais do petista. Como possui foro por prerrogativa de função, o caso foi encaminhado para o TJ-MA, sob o número 0823288-17.2025.8.10.0000.

O Coaf é um órgão federal de inteligência e controle financeiro vinculado ao governo federal, hoje sob o comando de Lula. Camarão é filiado ao PT, mesmo partido do presidente.

Também são alvo do pedido de afastamento o tenente-coronel Thiago Brasil Arruda e o major Alexandre Guimarães Nascimento, que, segundo a investigação, realizam as movimentações consideradas suspeitas pelo Coaf e pelo Gaeco.

A movimentação atípica só se torna crime se os recursos tiveram origem ilícita. Por isso, apesar do volume das transações monitoradas, o Ministério Público pediu apenas o afastamento dos investigados, enquanto apura a materialidade e os indícios de autoria de possíveis outros crimes conexos à lavagem de dinheiro e contra a administração pública, como corrupção, fraude em licitação, peculato e uso indevido de recursos ou estruturas do poder público.

O TJ-MA ainda não se manifestou sobre o pedido. Os policiais militares Thiago Brasil Arruda e Alexandre Guimarães Nascimento não foram localizados pelo Atual7 para se manifestar a respeito das suspeitas apontadas pelo Gaeco.

No documento de 60 páginas, o procurador-geral de Justiça descreve que a conta corrente principal do vice-governador no Banco do Brasil movimentou R$ 16,1 milhões (entrada e saída) entre 2022 e 2025. Desse total, apenas R$ 1,7 milhão tem origem identificada em salários, segundo o Gaeco. A investigação aponta ainda 230 depósitos em dinheiro vivo sem identificação do depositante e R$ 360 mil em valores separados abaixo de R$ 2 mil, técnica conhecida pelos investigadores como fracionamento, usada para dificultar o rastreamento da origem dos valores.

De acordo com o Gaeco, o tenente-coronel Thiago Brasil Arruda, lotado no Gabinete Militar do governo estadual como segurança pessoal do vice-governador, movimentou R$ 9,6 milhões entre maio de 2023 e novembro de 2024, apesar de renda mensal declarada de R$ 20,8 mil. Segundo o Ministério Público, sua renda formal representa apenas 7,1% do total que entrou em suas contas no período. O PGJ descreve que o tenente-coronel recebia valores de origem não esclarecida, fracionava os montantes e os redistribuía ao vice-governador, a familiares e a pessoas do entorno de Camarão.

Já o major Alexandre Guimarães Nascimento, também lotado no Gabinete Militar, segundo o Gaeco, movimentou R$ 10 milhões em 13 contas bancárias entre 2022 e 2025, sem registrar rendimentos nem bens nas declarações de imposto de renda. Sua renda líquida média era de R$ 4,5 mil. O pedido de afastamento do PM aponta que ele captava recursos de outros policiais militares e de familiares usados como interpostas pessoas, e que parte desses valores teria sido destinada a pagamentos em benefício de Felipe Camarão.

No final do ano passado, dois comunicadores maranhenses que tratavam da investigação criminal contra Camarão, incluindo o próprio Luis Pablo, foram censurados pelo Judiciário maranhense a pedido do tenente-coronel Thiago Brasil Arruda, um dos alvos agora do pedido de afastamento. O presidente do TJ-MA, desembargador Froz Sobrinho, alegou falta de provas para determinar a retirada das publicações, mas dados abertos da própria corte e do STJ, mostrou o Atual7, desmentiam a alegação.

Fundador-Editor do Atual7. Especializado em jornalismo investigativo e de dados, utiliza a LAI para expor corrupção, abusos e violações no setor público e privado, fortalecendo o direito da sociedade à informação e a responsabilização de quem atenta contra o interesse público.

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