REPORTAGEM · SOCIEDADE E DIREITOS

Sem reforma há 20 anos, Casa dos Estudantes em São Luís abriga hoje só 4 moradores

Entidade fundada para garantir permanência estudantil a jovens de baixa renda, que já foi símbolo do movimento estudantil, está caindo aos pedaços

Casarão que já abrigou cerca de 50 estudantes e foi palco de mobilizações como a Greve da Meia Passagem hoje tem placas de proibição de entrada e aparência de abandono Kethlen Mata/Atual7
Cultura e Patrimônio Direitos Humanos Educação

Quem passa em frente ao casarão da CESM (Casa dos Estudantes Secundários do Maranhão), na Rua do Passeio, Centro de São Luís, não imagina que alguém possa estar morando ali. A fachada descascada, a vegetação alta, os entulhos acumulados e as placas de proibição de entrada dão ao imóvel uma aparência de abandono.

Por dentro, a situação é pior. O Atual7 esteve no local e encontrou janelas quebradas, partes do forro desabadas, piso de madeira com buracos, infiltrações, aberturas na estrutura e acúmulo de lixo em quartos abandonados. Nesse ambiente ainda residem quatro moradores, todos homens, que passam a maior parte do tempo no estágio, trabalho ou faculdade e utilizam a casa apenas para dormir. Os quartos ocupados, a cozinha, o banheiro e parte da área externa são os espaços que ainda permitem uso.

A situação de abandono ganhou visibilidade no final de janeiro, após uma denúncia publicada pelo professor e ativista social Wesley Souza em suas redes sociais. Nas fotos, publicadas em seu perfil no Instagram, Souza mostra o risco de desabamento e a precariedade das instalações. “Uma residência secular, com obras de arte também seculares, que há 73 anos abriga um importante instrumento público de acolhimento a estudantes do interior do Maranhão, nestas condições…”, lamentou.

Criada em 1952 como entidade sem fins lucrativos para prestar assistência residencial a jovens do sexo masculino de baixa renda, a CESM já chegou a abrigar cerca de 50 pessoas, segundo moradores ouvidos pela reportagem. O casarão da Rua do Passeio, localizado em área de tombamento histórico estadual, foi um dos locais de reuniões e planejamento para mobilizações como a Greve da Meia Passagem em 1976. Entre os ex-moradores que passaram pela entidade está o ex-governador Luiz Rocha, que presidiu a CESM antes de ingressar na vida pública. Originalmente voltada a estudantes secundaristas, a casa passou a receber alunos da graduação em 2008, mudança oficializada no estatuto de 2018. Atualmente, esse histórico de protagonismo político contrasta com o cenário de abandono e a estrutura física em colapso.

A CESM é uma das três casas de assistência estudantil localizadas em São Luís. As demais são a REUFMA (Residência Estudantil da UFMA), na Rua da Paz, Centro, e a Unidade Habitacional do Campus Dom Delgado, na Vila Bacanga, nas dependências da própria UFMA (Universidade Federal do Maranhão). O Atual7 investiga a situação das três na série Moradia Estudantil.

O prédio da Casa dos Estudantes Secundários do Maranhão foi visitado pela reportagem em dois momentos: 28 de janeiro e 11 de março. Dos oito apartamentos previstos no estatuto, apenas quatro permanecem em uso, um para cada morador. Dos quatro residentes atuais, foi possível localizar e ouvir dois. Os outros residentes foram procurados por ligação e mensagens, mas não retornaram os pedidos de entrevista.

Raimundo Rufino acompanhou a reportagem na primeira visita. Com 27 anos e natural de São José dos Basílios, ele reside na unidade há uma década. O estudante de Direito testemunhou o esvaziamento da casa. Segundo ele, o quadro de degradação da estrutura física impede a renovação do quadro de moradores, já que os interessados desistem da vaga ao observar as condições do prédio. “As maiores oportunidades ainda estão na capital, a CESM era um lugar que poderia receber essas pessoas”, lamenta.

No local, a reportagem constatou que a deterioração física compromete a segurança básica dos moradores. No salão principal, aberturas no teto expõem o vigamento de madeira e permitem a entrada direta da chuva, o que acelerou o desabamento de forros e o rompimento dos pisos. Na área externa, a fachada descascada e a vegetação densa se misturam com entulho e móveis danificados.

Fernando Rodrigues acompanhou a reportagem na segunda visita ao casarão. Farmacêutico de 33 anos, ele retornou à unidade para cursar um pré-vestibular de Medicina, condição que a diretoria da CESM classifica como um “suporte filantrópico”, uma vez que o estatuto de 2018 restringe o benefício a estudantes secundaristas e de graduação. 

Rodrigues foi o responsável por apresentar os dormitórios desativados da CESM. Para além da sujeira e problemas estruturais, a sensação é de que os ambientes foram abandonados às pressas. “Eu estou aqui, mas eu procurei uma quitinete aqui no Centro, entendeu? Eu estou procurando, [mas] eu não encontrei. Por isso que eu ainda estou aqui. [Quero sair] por conta desses motivos estruturais. Tu acha que tem condição da pessoa estar naquele local ali com chuva? Um local que tem risco de desabar? Não tem condição”, desabafa o farmacêutico. 

Segundo Rodrigues, ele retornou à CESM há pouco tempo, e se surpreendeu com a diferença do espaço em comparação com 2020. “Tinha mais alunos, bem mais alunos, uns 15 por aí. E era bem organizada. Tu não via os quartos desativados. Os quartos eram todos organizados, limpinhos, porque tinha pessoas dentro, entendeu? A biblioteca funcionava”. Atualmente a biblioteca está desativada e o acervo abandonado.

Quarto com beliche de madeira, paredes com infiltração e mofo, mesa com notebook e ventilador no chão
Quarto da de Fernando na CESM, o espaço é utilizado simultaneamente como dormitório e área de estudos. Kethlen Mata/Atual7
Biblioteca da Casa dos Estudantes Secundaristas do Maranhão com estantes de livros, móveis desgastados e sujeira no chão.
Espaço onde funcionava a biblioteca CESM reúne o que sobrou de livros e materiais didáticos em meio a sujeira, móveis danificados e sinais de deterioração estrutural. Kethlen Mata/Atual7

Os problemas na estrutura mudaram a forma como a CESM é administrada. O estatuto de 2018 diz que a casa deve ser gerida por uma diretoria de alunos, com mandato de um ano. Naquela época, os moradores pagavam um valor simbólico de R$ 30 para comprar material de limpeza e manter o básico do lugar. A comida era por conta de cada um. Como a maioria vinha do interior, os pais mandavam os alimentos para São Luís.

Com o esvaziamento da casa por causa do sucateamento do prédio, não houve mais alunos suficientes para formar a diretoria. Por isso, ex-moradores assumiram a gestão para tentar manter a entidade funcionando. Segundo Elias Pereira, 39 anos, vice-presidente da diretoria atual e ex-morador, a gestão foi eleita em agosto de 2025. Ele diz que os quatro moradores não pagam taxas e a casa vive de doações, principalmente de ex-moradores.

A cozinha, onde os estudantes costumavam se reunir, hoje está precária, com um buraco no teto, sujeira e o piso quebrado. Como passam a maior parte do dia na faculdade, curso ou no trabalho, os quatro moradores raramente usam o espaço e concentram a manutenção e limpeza nos próprios quartos.

Natural de Arari, o contador Ivanildo Pereira, de 38 anos, residiu na CESM em dois períodos (2004-2009 e 2013-2019). Atualmente secretário-geral da diretoria da casa, ele explica que manter a entidade funcionando é o que evita que o prédio seja perdido. O estatuto diz que, se a CESM acabar, o patrimônio da entidade deverá ser destinado a uma instituição de fins semelhantes ou ao poder público. Para ele, aceitar moradores como Fernando é uma estratégia para garantir que a casa não feche as portas definitivamente.

Pereira explica que a queda de cerca de 50 moradores no passado para 15 há cinco anos, e o esvaziamento atual, deve-se a dois fatores principais. Segundo ele, o risco iminente de desabamento tornou diversos apartamentos e salões inabitáveis, fazendo com que muitos estudantes abandonassem o local por medo. Além disso, ele aponta que a falta de apoio público na última década inviabilizou a manutenção básica e a segurança, forçando os alunos a buscarem abrigo com parentes ou retornarem aos seus municípios de origem.

Embora seja uma entidade filantrópica com autonomia jurídica, a CESM possui um vínculo histórico de dependência com o Estado. O prédio onde funciona a casa foi doado pelo Estado em 1952 à UMES (União Maranhense de Estudantes Secundaristas) — nome da instituição até a mudança para CESM, em 1975. A doação, no entanto, só foi oficializada em 1960. A base jurídica da casa é a Lei Estadual nº 793 de 1952, que definiu a entidade como de utilidade pública, e a Lei Municipal nº 35 de 1957. De acordo com o secretário-geral Ivanildo Pereira, a Seduc (Secretaria de Estado da Educação) paga todas as contas de água e energia da residência desde o início das suas atividades, até os dias de hoje.

Fotografia de documento oficial de 1952 que declara a UMES como utilidade pública.
Documento histórico de 1952 registra a lei que conferiu utilidade pública à UMES, hoje CESM. O registro foi obtido via consulta ao acervo digital da Biblioteca Benedito Leite.

Relatos de ex-moradores, confirmados pelo secretário-geral Ivanildo Pereira, indicam que o prédio recebeu reparos em 1986, no governo Luiz Rocha. Vinte anos depois, em 2006, o governo de José Reinaldo Tavares realizou a última reforma, registrada em uma placa na entrada da casa. De lá para cá, o casarão não recebeu novas intervenções.

O cenário de abandono gera também insegurança na vizinhança da Rua do Passeio. Ericene Rodrigues, professora aposentada de 68 anos, reside em frente ao casarão há cinco décadas e recorda o período em que o local era um ponto de referência social e política. “Era um local de muita gente jovem e muita socialização. Os meninos sempre estavam aqui na frente conversando, organizando as coisas e as movimentações”, afirma a professora. Hoje, segundo ela, as memórias do passado deram lugar ao medo. A retirada do vigilante permitiu invasões recentes por pessoas em situação de rua e usuários de drogas. “A insegurança é muito grande, tanto para a vizinhança quanto para eles, que vivem isolados lá para o final”, afirma.

A diretoria da CESM protocolou três pedidos junto ao governo Carlos Brandão (sem partido) desde outubro de 2024. O primeiro, direcionado à Sedihpop (Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular), solicitava visita ao prédio e intermediação para reforma. Em dezembro do mesmo ano, a secretária Lília Raquel Silva de Negreiros encaminhou o pedido a Brandão, à Sinfra (Secretaria de Estado da Infraestrutura) e à Seduc, citando “risco iminente às pessoas que frequentam e residem no local”. O último documento disponível para acesso, de 16 de dezembro de 2024, é um despacho da Sinfra que encaminha o processo à Secretaria-Adjunta de Gestão Civil. A última movimentação registrada no SEI (processo nº 2024.54000.03290) foi em 24 de outubro de 2025.

Em julho de 2025, a CESM protocolou novo pedido diretamente à Seduc, solicitando reforma estrutural emergencial. Internamente, a Supervisão de Gestão da Rede Física recomendou o envio à Supervisão de Obras para elaboração de projeto e orçamento, com posterior encaminhamento à Sinfra. O último documento disponível, de 25 de setembro de 2025, encaminha o processo à Supervisão de Obras, que é também a data da última movimentação no sistema (processo nº 2025.110220.26317). São seis meses parado.

O terceiro pedido, de outubro de 2025, solicitava a recontratação de guarda patrimonial. O último documento disponível, de 28 de outubro de 2025, encaminha o processo à Supervisão de Serviços Gerais. A última movimentação no SEI (processo nº 2025.110220.38404) foi em 29 de janeiro de 2026. Até o fechamento desta reportagem, a vigilância não havia sido restabelecida.

Segundo a diretoria da CESM, a Seduc orientou a inclusão da entidade no programa estadual “Mãos à Obra“, iniciativa voltada à recuperação de prédios públicos. No entanto, a inserção foi condicionada à apresentação de um dossiê documental detalhado, incluindo certidões, atas e laudos técnicos. Ainda segundo a diretoria, o Estado não oferece suporte para a compilação desta documentação nem para a análise de viabilidade do acordo. De acordo com relatório produzido pela diretoria da casa em 21 de janeiro, os processos estão parados sob a justificativa de “alta demanda”.

Segundo Ivanildo, o reconhecimento de utilidade pública fundamenta a responsabilidade do Estado em garantir a manutenção da casa. “O Estado doou o prédio para que ele servisse especificamente à assistência estudantil. O descaso atual da Seduc fere o espírito dessa cooperação histórica e coloca em risco um patrimônio que, legalmente, deve retornar ao Poder Público apenas em caso de extinção da entidade”, conclui.

Para Jhonatan Almada, atual diretor do CIEPP (Centro de Inovação para a Excelência das Políticas Públicas) e ex-reitor do IEMA (Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão), o abandono de estruturas como a CESM reflete uma ausência de prioridade estratégica na educação estadual.

“Quem tudo quer fazer, dispersa. É que o tema da permanência não está na agenda do governo, sequer há modelo de assistência estudantil. Prevalece a política federal de programas como o Pé-de-Meia ou a política estadual dos auxílios para transporte universitário.”

Jhonatan Almada

O Atual7 procurou a Seduc para questionar a falta de cronogramas para o levantamento técnico nos processos de reforma e a ausência de uma estratégia estadual de moradia estudantil que vá além do custeio de faturas básicas. O primeiro contato foi realizado via e-mail em 10 de fevereiro, com tentativa de reforço por ligação na mesma data, que não foi atendida. Uma nova solicitação foi enviada à secretaria em 16 de março para reiterar os questionamentos. À Sedihpop, a reportagem solicitou, também em 10 de fevereiro, o detalhamento dos desdobramentos práticos do ofício enviado em 2024 e se haveria mediação junto à Seduc para a inclusão da casa no programa ‘Mãos à Obra’. Nenhuma das pastas enviou resposta.

Jornalista dedicada à pautas sociais, direitos humanos e cultura local. Responsável pela cobertura investigativa de questões que impactam as comunidades maranhenses.

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