NOTíCIA · VIDA PúBLICA

CPI do INSS rejeita pedido de indiciamento de Weverton, Sarney Filho e Edson Araújo e termina sem relatório

Parecer de mais de 4 mil páginas, rejeitado após articulação do governo Lula, também mirava ex-assessor do senador, contador e assessor parlamentar
Senador Weverton Rocha aponta o dedo indicador durante sessão em comissão do Senado Federal.
Weverton Rocha foi alvo de pedido de indiciamento por organização criminosa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e advocacia administrativa Geraldo Magela/Agência Senado
Corrupção e Integridade Pública Poder Transparência e Controle Social

Por 19 votos a 12, a CPI mista do INSS rejeitou, após articulação do governo Lula (PT), o parecer do deputado Alfredo Gaspar (União-AL), relator da comissão parlamentar de inquérito. O texto pedia o indiciamento de 216 pessoas, dentre elas três políticos do Maranhão: o senador Weverton Rocha (PDT-MA), o ex-deputado federal e ex-ministro do Meio Ambiente Sarney Filho (PV-MA) e o deputado estadual licenciado Edson Araújo (sem partido).

A comissão funcionou por sete meses e foi finalizada na madrugada deste sábado (28), data-limite para a conclusão dos trabalhos, sem apresentação de relatório final. Um texto alternativo, apresentado pela base do Palácio do Planalto com pedido de indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), do seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e outras 168 pessoas, sequer foi submetido à apreciação.

Com 4.340 páginas, o parecer de Gaspar apontava a existência de núcleos técnico, administrativo, financeiro, empresarial e político em um esquema que movimentou bilhões de reais por meio de descontos não autorizados de aposentadorias e pensões do INSS. O nome de maior repercussão nacional na lista era o de Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente da República, por suposto envolvimento com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, também incluído.

O parecer rejeitado pela maioria da CPI descreve que Weverton teve “atuação estratégica como liderança política e suporte institucional da organização criminosa”. O relator diz que ainda “o parlamentar atuou como o articulador que garantia a fluidez dos interesses do grupo dentro da administração pública, permitindo a manutenção e expansão do sistema de descontos indevidos em benefícios previdenciários”. A proposta de indiciamento do senador apontava os crimes de organização criminosa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e advocacia administrativa.

No final de 2025, a Polícia Federal pediu a prisão preventiva de Weverton, mas o ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), negou o pedido e autorizou apenas buscas em endereços ligados ao parlamentar.

Em nota, Weverton afirmou que não havia “qualquer elemento que justifique” sua inclusão no relatório e apontou “fragilidades gritantes na investigação”. Segundo o pedetista, não existe “qualquer ato identificado que indique [sua] participação, facilitação ou integração em eventual estrutura criminosa, nem o menor indício de recebimento de valores supostamente desviados”. Ele classificou as planilhas e anotações manuscritas citadas no documento como “precários documentos sem identificação” que “carecem de mínima validade jurídica” e chamou as imputações de “pura irresponsabilidade de inspiração lavajatista”. Weverton também negou participação em reuniões com entidades investigadas e disse que acusações contra ele são “mera ilação em linguagem elegante” e “arma de baixíssimo calibre para atingir adversários”.

Sobre Sarney Filho, o texto apontava que ele é sócio da SF Consulting Serviços e teria recebido, em março de 2025, uma transferência suspeita de R$ 7,5 milhões de Maurício Camisotti, apontado como controlador das entidades investigadas na Operação Sem Desconto. Sarney Filho também teria recebido pessoalmente R$ 1,6 milhão em cinco lançamentos da própria SF Consulting. A sugestão de indiciamento era pelo crime de lavagem de dinheiro, por suposta ocultação de valores via “empresa de fachada ou consultoria fictícia”.

Sarney Filho durante evento na Câmara dos Deputados.
Ex-ministro do Meio Ambiente foi alvo de pedido de indiciamento pelo relator da CPI do INSS por lavagem de dinheiro; ele teria recebido R$ 7,5 milhões sem justificativa comercial Mario Agra/Câmara dos Deputados

Já sobre Edson Araújo, o parecer descreve o parlamentar como “uma das principais lideranças do Núcleo Maranhão da organização criminosa” e “um dos maiores operadores financeiros do esquema” no estado. Segundo o documento, quebra de sigilo bancário identificou movimentação de R$ 86 milhões nas contas do deputado estadual entre 2020 e 2025. Somente em 2024, enquanto ocupava o cargo de secretário de Estado da Pesca do Maranhão do governo Carlos Brandão (sem partido), suas contas registraram R$ 25,4 milhões em movimentações, mas sua declaração de imposto de renda apontava rendimentos de apenas R$ 972,4 mil, equivalente a 1,1% do total de créditos recebidos.

O documento também menciona que Edson Araújo ameaçou o deputado federal Duarte Júnior (PSB-MA), vice-presidente da CPI, via WhatsApp, após ser questionado sobre os desvios. Nas mensagens, teria afirmado que o parlamentar “iria se arrepender” e que “ainda iriam se encontrar”. O pedido de indiciamento contra ele lista os crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, coação no curso do processo, fraude eletrônica, furto eletrônico e peculato. Em fevereiro, ele foi obrigado pela Justiça a usar tornozeleira eletrônica e cumprir recolhimento domiciliar noturno.

Homem calvo, de óculos e terno azul-marinho com gravata azul, fala ao microfone. Ao fundo, painel colorido com figuras humanas pintadas
Segundo investigações da Operação Sem Desconto e da CPMI do INSS, Edson Araújo movimentou mais de R$ 73 milhões entre 2024 e 2025 Divulgação/Agência Assembleia

Também houve o pedido de indicamento de Gustavo Marques Gaspar, ex-assessor de Weverton entre 2019 e 2023, descrito pela Polícia Federal como “braço direito” do senador. Gasparzinho, como é conhecido no Maranhão, é ainda ex-sócio em um haras do deputado federal Juscelino Filho (PSDB-MA).

Outros alvos da proposta de indiciamento foram Helioenay Rodrigues de Sousa, assessor de Edson Araújo na Assembleia Legislativa do Maranhão; e Hamilton Souza, contador da Fetaema (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Maranhão).

O Atual7 não conseguiu contato com Sarney Filho e Edson Araújo nem com Gasparzinho e Helioenay. O espaço está aberto para manifestação.

O parecer de relator também apontava uma rede de 41 empresas que teriam sido usadas para pagamento de propinas e lavagem de dinheiro de diferentes esquemas, e recomendava que os ministros do Supremo Alexandre de Moraes e Dias Toffoli fossem investigados por possíveis crimes, como tráfico de influência, nas relações que mantinham com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Fundador-Editor do Atual7. Especializado em jornalismo investigativo e de dados, utiliza a LAI para expor corrupção, abusos e violações no setor público e privado, fortalecendo o direito da sociedade à informação e a responsabilização de quem atenta contra o interesse público.

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.