O relatório da CPI mista do INSS que pedia o indiciamento de três políticos maranhenses foi rejeitado por 19 votos a 12 na madrugada de sábado (28). Dentre os votos contrários, estava o da senadora Eliziane Gama (PSD-MA). O deputado federal Duarte Júnior (PSB-MA), vice-presidente da comissão, votou a favor, mas sua manifestação foi descartada por ele ter votado na condição de suplente.
O parecer do relator Alfredo Gaspar (União-AL) propunha o indiciamento de 216 pessoas, dentre elas o senador Weverton Rocha (PDT-MA), o ex-deputado federal Sarney Filho (PV-MA) e o deputado estadual licenciado Edson Araújo (sem partido). Como foi rejeitado pela maioria e o texto alternativo apresentado pela base do Palácio do Planalto sequer foi submetido à apreciação, a CPI encerrou os trabalhos sem um relatório aprovado.
O ex-assessor de Weverton Gustavo Marques Gaspar, o Gasparzinho; o assessor de Edson Araújo na Assembleia Legislativa, Helioenay Rodrigues de Sousa; e o contador da Fetaema (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Maranhão), Hamilton Souza, também estavam na lista de pedidos de indiciamento rejeitada pela maioria.
Conforme o Atual7 mostrou, o documento de 4.340 páginas apontava a existência de núcleos técnico, administrativo, financeiro, empresarial e político em um esquema que movimentou bilhões de reais por meio de descontos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS.
Eliziane participou de sessões ao longo dos sete meses de trabalho e protagonizou embates com o relator. Na votação final, argumentou que o parecer era “parcial” e deveria ser “derrotado” para dar lugar a um texto “imparcial”. Seu voto acompanhou a posição da base do governo Lula (PT), que se articulou para rejeitar o texto. O Atual7 enviou mensagens e ligou para a senadora perguntando o que motivou o voto contrário ao indiciamento dos maranhenses, mas não obteve resposta até o momento.

Duarte Júnior teve trajetória oposta. Eleito vice-presidente da CPI em agosto de 2025, com apoio de governo e oposição, atuou ativamente nas investigações ao longo dos sete meses. Votou a favor de todos os requerimentos de convocação e quebra de sigilo e foi uma das vozes mais críticas ao esquema no Maranhão. Por causa dessa atuação, segundo investigações da Polícia Federal na Operação Sem Desconto, foi ameaçado por Edson Araújo. O parecer rejeitado mostra que o deputado estadual enviou mensagens a Duarte afirmando que ele “iria se arrepender” e que “ainda iriam se encontrar”.
Na sessão final, Duarte votou a favor do parecer que pedia o indiciamento de Weverton por organização criminosa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e advocacia administrativa; de Sarney Filho por lavagem de dinheiro; e de Edson Araújo por sete crimes, incluindo organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e coação no curso do processo.
A manifestação está registrada nas notas taquigráficas da CPI e em vídeo. No entanto, o painel oficial da votação classifica seu voto na categoria “não computado”. Na composição da comissão, Duarte aparece entre os suplentes.

Em nota ao Atual7, o deputado afirmou que houve uma “manobra de última hora, articulada entre partido dono da cadeira na comissão e a base do governo” para retirá-lo da titularidade. “O objetivo é claro: esvaziar meu voto, reduzir meu peso e tentar impedir o avanço das investigações”, disse.
Apesar de filiado ao PSB, Duarte ocupava vaga do União Brasil na CPI e estava em processo de filiação ao partido para disputar as eleições de 2026. Para o deputado, a retaliação veio após denunciar “uma relação entre parlamentares e interesses no sistema financeiro”, o que, segundo ele, também inviabilizou sua ida para a legenda a poucos dias do prazo final de desincompatibilização.
Apesar da rejeição ao parecer, o presidente da CPI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), anunciou que enviará as 4.340 páginas do documento à PF e à PGR (Procuradoria-Geral da República), que já conduzem investigações sobre o caso.