NOTíCIA · VIDA PúBLICA

Eliziane votou contra relatório da CPI do INSS; voto favorável de Duarte não foi computado

Senadora integrou maioria que rejeitou pedido de indiciamento de Weverton, Sarney Filho e Edson Araújo. Deputado acusa manobra entre União Brasil e base do governo para “esvaziar” seu voto
Senadora Eliziane Gama, de camisa branca e cabelos longos escuros, em sessão de comissão parlamentar.
Eliziane seguiu orientação do Palácio do Planalto e argumentou que o parecer era parcial e deveria ser derrotado Andressa Anholete/Agência Senado
Corrupção e Integridade Pública Poder Transparência e Controle Social

O relatório da CPI mista do INSS que pedia o indiciamento de três políticos maranhenses foi rejeitado por 19 votos a 12 na madrugada de sábado (28). Dentre os votos contrários, estava o da senadora Eliziane Gama (PSD-MA). O deputado federal Duarte Júnior (PSB-MA), vice-presidente da comissão, votou a favor, mas sua manifestação foi descartada por ele ter votado na condição de suplente.

O parecer do relator Alfredo Gaspar (União-AL) propunha o indiciamento de 216 pessoas, dentre elas o senador Weverton Rocha (PDT-MA), o ex-deputado federal Sarney Filho (PV-MA) e o deputado estadual licenciado Edson Araújo (sem partido). Como foi rejeitado pela maioria e o texto alternativo apresentado pela base do Palácio do Planalto sequer foi submetido à apreciação, a CPI encerrou os trabalhos sem um relatório aprovado.

O ex-assessor de Weverton Gustavo Marques Gaspar, o Gasparzinho; o assessor de Edson Araújo na Assembleia Legislativa, Helioenay Rodrigues de Sousa; e o contador da Fetaema (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Maranhão), Hamilton Souza, também estavam na lista de pedidos de indiciamento rejeitada pela maioria.

Conforme o Atual7 mostrou, o documento de 4.340 páginas apontava a existência de núcleos técnico, administrativo, financeiro, empresarial e político em um esquema que movimentou bilhões de reais por meio de descontos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS.

Eliziane participou de sessões ao longo dos sete meses de trabalho e protagonizou embates com o relator. Na votação final, argumentou que o parecer era “parcial” e deveria ser “derrotado” para dar lugar a um texto “imparcial”. Seu voto acompanhou a posição da base do governo Lula (PT), que se articulou para rejeitar o texto. O Atual7 enviou mensagens e ligou para a senadora perguntando o que motivou o voto contrário ao indiciamento dos maranhenses, mas não obteve resposta até o momento.

Deputado Duarte Júnior fala ao microfone durante sessão da CPI do INSS, gesticulando com a mão esquerda.
Duarte Júnior foi ameaçado por investigado pela CPI do INSS Marcos Oliveira/Agência Senado

Duarte Júnior teve trajetória oposta. Eleito vice-presidente da CPI em agosto de 2025, com apoio de governo e oposição, atuou ativamente nas investigações ao longo dos sete meses. Votou a favor de todos os requerimentos de convocação e quebra de sigilo e foi uma das vozes mais críticas ao esquema no Maranhão. Por causa dessa atuação, segundo investigações da Polícia Federal na Operação Sem Desconto, foi ameaçado por Edson Araújo. O parecer rejeitado mostra que o deputado estadual enviou mensagens a Duarte afirmando que ele “iria se arrepender” e que “ainda iriam se encontrar”.

Na sessão final, Duarte votou a favor do parecer que pedia o indiciamento de Weverton por organização criminosa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e advocacia administrativa; de Sarney Filho por lavagem de dinheiro; e de Edson Araújo por sete crimes, incluindo organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e coação no curso do processo.

A manifestação está registrada nas notas taquigráficas da CPI e em vídeo. No entanto, o painel oficial da votação classifica seu voto na categoria “não computado”. Na composição da comissão, Duarte aparece entre os suplentes.

Painel eletrônico exibe resultado da votação na CPI do INSS, com 19 votos contrários e 12 favoráveis ao relatório.
Painel mostra votação que rejeitou relatório da CPI do INSS; voto de Duarte Júnior, em roxo, não foi computador por ele estar como suplente Marcos Oliveira/Agência Senado

Em nota ao Atual7, o deputado afirmou que houve uma “manobra de última hora, articulada entre partido dono da cadeira na comissão e a base do governo” para retirá-lo da titularidade. “O objetivo é claro: esvaziar meu voto, reduzir meu peso e tentar impedir o avanço das investigações”, disse.

Apesar de filiado ao PSB, Duarte ocupava vaga do União Brasil na CPI e estava em processo de filiação ao partido para disputar as eleições de 2026. Para o deputado, a retaliação veio após denunciar “uma relação entre parlamentares e interesses no sistema financeiro”, o que, segundo ele, também inviabilizou sua ida para a legenda a poucos dias do prazo final de desincompatibilização.

Apesar da rejeição ao parecer, o presidente da CPI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), anunciou que enviará as 4.340 páginas do documento à PF e à PGR (Procuradoria-Geral da República), que já conduzem investigações sobre o caso.

Fundador-Editor do Atual7. Especializado em jornalismo investigativo e de dados, utiliza a LAI para expor corrupção, abusos e violações no setor público e privado, fortalecendo o direito da sociedade à informação e a responsabilização de quem atenta contra o interesse público.

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.