O tenente-coronel Thiago Brasil Arruda, policial militar lotado no Gabinete Militar do governo do Maranhão como segurança pessoal do vice-governador Felipe Camarão (PT), realizou ao menos seis pagamentos de contribuições previdenciárias devidas por Camarão à AGU (Advocacia-Geral da União), na condição de procurador federal afastado.
Os pagamentos estão descritos no pedido de afastamento urgente formulado pelo procurador-geral de Justiça do Maranhão Danilo de Castro ao Tribunal de Justiça do Estado, no âmbito do Procedimento Investigatório Criminal nº 025065-750/2025, que apura suspeita de lavagem de dinheiro. O relator é o desembargador Sebastião Bonfim.
Ao Atual7, a AGU confirmou que Camarão “encontra-se há anos afastado de sua atuação funcional junto à Procuradoria-Geral Federal, órgão da Advocacia-Geral da União, exercendo cargos em comissão e de natureza política perante o governo do Estado do Maranhão”, e que “eventuais recolhimentos previdenciários não passam pela gestão ou análise da Procuradoria-Geral Federal”.
O vice-governador foi procurado por e-mail, mensagem e ligação na última sexta-feira (27), para explicar a natureza da relação financeira com Thiago Brasil Arruda, mas não retornou o contato.
O pedido de afastamento de Camarão e Arruda das respectivas funções públicas, que inclui ainda outro policial militar, o major Alexandre Guimarães Nascimento, está sob sigilo judicial. Com isso, a reportagem não tem informações de quem é responsável pela defesa dos PMs nem conseguiu localizá-los. O espaço segue aberto para manifestação.
Os DARFs, comprovantes de pagamento de tributos federais, foram quitados pela conta bancária de Thiago Brasil Arruda e enviados por e-mail com cópia para o endereço pessoal do vice-governador. Os pagamentos referem-se aos meses de novembro e dezembro de 2023, janeiro, março e abril de 2024 e agosto de 2024, totalizando R$ 27.469,44. Os valores variam entre os meses em razão de acréscimos de multa e juros por atraso em alguns pagamentos.

O tenente-coronel da PM maranhense tem renda mensal declarada de R$ 20,8 mil e, segundo o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), movimentou R$ 9,6 milhões em período relativamente curto, valor incompatível com sua capacidade econômica formal. O Atual7 mostrou na última quarta-feira (25) que o STJ (Superior Tribunal de Justiça) registrou, em decisão do ministro Og Fernandes, que o policial já havia obtido acesso formal aos autos da mesma investigação que o vice-governador afirma desconhecer.
O pagamento das contribuições previdenciárias é um dos elementos que o Gaeco descreve como parte de um padrão de custeio indireto de despesas pessoais do vice-governador por terceiros.
O Ministério Público aponta que Camarão é o beneficiário central de um esquema de movimentações financeiras atípicas operado por policiais militares de sua segurança pessoal, com origem em alertas do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão federal de controle financeiro vinculado ao governo federal, hoje sob Lula. Camarão é filiado ao PT, mesmo partido do presidente.
Felipe Camarão é procurador federal de carreira afastado da AGU para exercer o cargo de vice-governador. Nessa condição, é obrigado a manter o recolhimento de contribuições previdenciárias para preservar o vínculo com a carreira. Não há, nos autos, identificação de relação contratual, de empréstimo ou outro vínculo financeiro formal entre Camarão e Thiago Brasil Arruda que justifique os pagamentos.
O desembargador do TJ-MA Sebastião Bonfim, que assumiu o caso após o desembargador Raimundo Barros se declarar suspeito, ainda não se manifestou sobre o pedido de afastamento de Camarão e dos dois policiais militares.
A investigação é noticiada pelo Atual7 desde dezembro do ano passado, quando mostrou que decisões do Judiciário estadual haviam censurado publicações de dois comunicadores maranhenses que tratavam das movimentações financeiras suspeitas.