Uma semana após o movimento em que renunciou à Prefeitura de São Luís e se confirmou na disputa pelo Palácio dos Leões de forma isolada, Eduardo Braide (PSD) fará seu primeiro ato de pré-campanha ao governo do Maranhão fora de São Luís, onde qualquer aparição pública o exporia às perguntas que deixou sem resposta. No interior, ele escapa do escrutínio presencial do ludovicense e chega onde ainda é figura filtrada pelas redes sociais, não pelo cotidiano.
Na capital, Braide deixou a então vice, agora prefeita, Esmênia Miranda (PSD) no comando do Palácio de La Ravardière com um transporte público em colapso e sem a prometida nova licitação, e o passe livre estudantil aprovado em plebiscito por quase 90% dos eleitores sem qualquer processo administrativo aberto para sua implementação.

A nova licitação do transporte público foi prometida em fevereiro de 2025, durante mais uma greve dos trabalhadores dos ônibus, mas até a renúncia de Braide, no último dia 31 de março, não teve edital publicado. Já o passe livre estudantil, apoiado pela população de São Luís nas eleições de 2024, foi sistematicamente ignorado pelo agora pré-candidato ao governo estadual. Ao longo dos últimos 16 meses, ele não indicou representantes da prefeitura para a comissão especial criada pela Câmara Municipal para avaliar a viabilidade da medida nem encaminhou à Casa projeto de lei para instituir o programa. Quando tratou do assunto publicamente, sem apresentar dados que sustentassem suas afirmações, atribuiu o debate à “politicagem” dos vereadores.
No período, acumulou para a prefeitura, deixada para Esmênia responder, auditorias do TCE-MA (Tribunal de Contas do Estado do Maranhão) que apontam ausência de política municipal de mobilidade urbana e falhas na fiscalização dos contratos com o empresariado que controla o sistema de transporte público, além de inquéritos do Ministério Público que apuram falhas na prestação do serviço, paralisações e irregularidades na gestão, financiamento do sistema, renovação da frota e cumprimento de obrigações contratuais.
O Atual7 questionou nesta segunda-feira (6) Eduardo Braide, via rede social, e o gabinete de Esmênia Miranda, em e-mail enviado à Secom (Secretaria Municipal de Comunicação), sobre previsão de abertura da nova licitação do transporte e a implementação do passe livre estudantil. Não houve resposta.

Antes, também sem retorno de Braide e da prefeitura, foram feitos questionamentos sobre o Circo da Cidade, promessa refeita durante a campanha eleitoral de 2024 sob afirmações falsas, segundo mostram documentos oficiais; e a respeito do sistema de drenagem, diante de recorrentes alagamentos registrados na capital maranhense durante o período chuvoso.
Com esse histórico às costas, a primeira parada da pré-campanha é Imperatriz, segundo maior colégio eleitoral do estado, onde o agora pré-candidato ao governo tem pouca penetração eleitoral.
A escolha pela cidade, porém, não é nova na política maranhense: nas eleições de 2006, Jackson Lago elegeu como vice Luís Carlos Porto, político com base em Imperatriz que dois anos depois seria eleito vice-prefeito da cidade. O hoje ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino, em suas três campanhas ao governo, sempre dedicou peso especial à Região Tocantina, e o atual governador Carlos Brandão (sem partido), seu vice nas eleições de 2014 e 2018, tem raízes no agronegócio do sul do estado. Quem quer governar o Maranhão passa por Imperatriz.
É lá que Braide anunciará sua pré-candidata a vice-governadora. A preferência pessoal é pela engenheira agrônoma Gisela Introvini, organizadora da Agrobalsas e presidente da Associação das Mulheres do Agronegócio do Maranhão, com quem tem ligação antiga, de quando ainda era deputado estadual.
A estratégia segue lógica semelhante à que orientou a composição em São Luís, mas adaptada ao perfil do eleitorado: se na capital Esmênia Miranda reúne representatividade junto ao funcionalismo público como professora e policial militar, além de ajudar a neutralizar acusações de racismo que circularam contra Braide nas eleições de 2020, sempre negadas por ele, no sul do estado o que pesa é a força do agronegócio e do meio evangélico, dois territórios em que Gisela transita. Nas redes sociais, porém, ele anunciou que o nome será da própria Imperatriz.
O Atual7 apurou que as negociações para a chapa também envolvem o PL e o Novo. Ambos por razões práticas, que vão além do tempo de rádio e televisão e estrutura financeira de campanha.
Controlado no estado pelo deputado federal Josimar Maranhãozinho, o PL tem como pré-candidato à Presidência o senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro. O presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto, já demonstrou interesse de apoiar Braide para o Palácio dos Leões. Atrair o Novo, do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema, também pré-candidato ao Planalto, aniquilaria o principal adversário de Braide pelos votos da direita e de bolsonaristas: o ex-prefeito de São Pedro dos Crentes, Lahesio Bonfim, hoje pré-candidato do partido ao governo do Maranhão.

Depois de Imperatriz, Braide pretende dar um giro por Balsas, principal polo agrícola do estado na produção de soja. Na cidade, tem agenda marcada com o ex-prefeito Dr. Erik Augusto, recém-filiado ao PSDB. O partido, que desde os governos Dino esteve anilhado ao Palácio dos Leões, passou recentemente ao controle do deputado federal Juscelino Filho, que o assumiu após deixar o União Brasil e declarou estar aberto ao diálogo com todas as frentes políticas do estado.
Apesar de Braide ter ascendido sob estratégia de imagem e distanciamento simbólico da política tradicional, os dois neo-tucanos carregam histórico de investigações. Dr. Erik é réu em ação de improbidade administrativa movida pelo próprio Município de Balsas, por suspeita, junto a dois então secretários municipais, de irregularidades em contrato de obra escolar com prejuízo estimado de R$ 744 mil aos cofres públicos.
Juscelino, por sua vez, foi denunciado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) ao Supremo por suspeita de desvio de emendas parlamentares em obras da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) em Vitorino Freire, cidade que era administrada por sua irmã, Luanna Rezende. O processo corre em sigilo na corte sob relatoria de Dino, que em maio do ano passado suspendeu os prazos após a defesa apontar trechos ilegíveis na denúncia e determinou à PGR o reenvio da peça.