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Braide inicia pré-campanha em Imperatriz e deixa para Esmênia licitação do transporte e passe livre sem solução

Longe da cobrança presencial dos ludovicenses, ex-prefeito anuncia vice ao Palácio dos Leões na Região Tocantina e negocia Novo, PL e PSDB para a chapa
O prefeito de São Luís, Eduardo Braide, em ato de posse para o segundo mandato à frente do Palácio de La Ravardière
O prefeito de São Luís, Eduardo Braide, em ato de posse para o segundo mandato à frente do Palácio de La Ravardière Leonardo Mendonça
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Uma semana após o movimento em que renunciou à Prefeitura de São Luís e se confirmou na disputa pelo Palácio dos Leões de forma isolada, Eduardo Braide (PSD) fará seu primeiro ato de pré-campanha ao governo do Maranhão fora de São Luís, onde qualquer aparição pública o exporia às perguntas que deixou sem resposta. No interior, ele escapa do escrutínio presencial do ludovicense e chega onde ainda é figura filtrada pelas redes sociais, não pelo cotidiano.

Na capital, Braide deixou a então vice, agora prefeita, Esmênia Miranda (PSD) no comando do Palácio de La Ravardière com um transporte público em colapso e sem a prometida nova licitação, e o passe livre estudantil aprovado em plebiscito por quase 90% dos eleitores sem qualquer processo administrativo aberto para sua implementação.

A vice-prefeita de São Luís, Esmênia Mirada. Foto: Leonardo Mendonça
A nova prefeita de São Luís, Esmênia Miranda, herda um sistema de transporte público colapsado e sem cumprimento de promessas por seu antecessor Leonardo Mendonça

A nova licitação do transporte público foi prometida em fevereiro de 2025, durante mais uma greve dos trabalhadores dos ônibus, mas até a renúncia de Braide, no último dia 31 de março, não teve edital publicado. Já o passe livre estudantil, apoiado pela população de São Luís nas eleições de 2024, foi sistematicamente ignorado pelo agora pré-candidato ao governo estadual. Ao longo dos últimos 16 meses, ele não indicou representantes da prefeitura para a comissão especial criada pela Câmara Municipal para avaliar a viabilidade da medida nem encaminhou à Casa projeto de lei para instituir o programa. Quando tratou do assunto publicamente, sem apresentar dados que sustentassem suas afirmações, atribuiu o debate à “politicagem” dos vereadores.

No período, acumulou para a prefeitura, deixada para Esmênia responder, auditorias do TCE-MA (Tribunal de Contas do Estado do Maranhão) que apontam ausência de política municipal de mobilidade urbana e falhas na fiscalização dos contratos com o empresariado que controla o sistema de transporte público, além de inquéritos do Ministério Público que apuram falhas na prestação do serviço, paralisações e irregularidades na gestão, financiamento do sistema, renovação da frota e cumprimento de obrigações contratuais.

O Atual7 questionou nesta segunda-feira (6) Eduardo Braide, via rede social, e o gabinete de Esmênia Miranda, em e-mail enviado à Secom (Secretaria Municipal de Comunicação), sobre previsão de abertura da nova licitação do transporte e a implementação do passe livre estudantil. Não houve resposta.

Grupo de pessoas aguarda em ponto de ônibus sem cobertura adequada em São Luís durante a greve dos rodoviários. A calçada está deteriorada e não há ônibus à vista.
Sem ônibus circulando por diversas vezes ao longo dos últimos cinco anos e com o site de cadastro do voucher fora do ar, a população de São Luís depende de alternativas próprias para se deslocar Leonardo Mendonça/Atual7

Antes, também sem retorno de Braide e da prefeitura, foram feitos questionamentos sobre o Circo da Cidade, promessa refeita durante a campanha eleitoral de 2024 sob afirmações falsas, segundo mostram documentos oficiais; e a respeito do sistema de drenagem, diante de recorrentes alagamentos registrados na capital maranhense durante o período chuvoso.

Com esse histórico às costas, a primeira parada da pré-campanha é Imperatriz, segundo maior colégio eleitoral do estado, onde o agora pré-candidato ao governo tem pouca penetração eleitoral.

A escolha pela cidade, porém, não é nova na política maranhense: nas eleições de 2006, Jackson Lago elegeu como vice Luís Carlos Porto, político com base em Imperatriz que dois anos depois seria eleito vice-prefeito da cidade. O hoje ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino, em suas três campanhas ao governo, sempre dedicou peso especial à Região Tocantina, e o atual governador Carlos Brandão (sem partido), seu vice nas eleições de 2014 e 2018, tem raízes no agronegócio do sul do estado. Quem quer governar o Maranhão passa por Imperatriz.

É lá que Braide anunciará sua pré-candidata a vice-governadora. A preferência pessoal é pela engenheira agrônoma Gisela Introvini, organizadora da Agrobalsas e presidente da Associação das Mulheres do Agronegócio do Maranhão, com quem tem ligação antiga, de quando ainda era deputado estadual.

A estratégia segue lógica semelhante à que orientou a composição em São Luís, mas adaptada ao perfil do eleitorado: se na capital Esmênia Miranda reúne representatividade junto ao funcionalismo público como professora e policial militar, além de ajudar a neutralizar acusações de racismo que circularam contra Braide nas eleições de 2020, sempre negadas por ele, no sul do estado o que pesa é a força do agronegócio e do meio evangélico, dois territórios em que Gisela transita. Nas redes sociais, porém, ele anunciou que o nome será da própria Imperatriz.

O Atual7 apurou que as negociações para a chapa também envolvem o PL e o Novo. Ambos por razões práticas, que vão além do tempo de rádio e televisão e estrutura financeira de campanha.

Controlado no estado pelo deputado federal Josimar Maranhãozinho, o PL tem como pré-candidato à Presidência o senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro. O presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto, já demonstrou interesse de apoiar Braide para o Palácio dos Leões. Atrair o Novo, do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema, também pré-candidato ao Planalto, aniquilaria o principal adversário de Braide pelos votos da direita e de bolsonaristas: o ex-prefeito de São Pedro dos Crentes, Lahesio Bonfim, hoje pré-candidato do partido ao governo do Maranhão.

Dois jovens na galeria da Câmara de São Luís seguram cartazes pedindo a aprovação do Passe Livre Estudantil.
Representantes do movimento estudantil acompanham da galeria a votação da LOA 2026 na Câmara de São Luís. A emenda que criou dotação de R$ 15 milhões para o Passe Livre Estudantil foi criticada por Eduardo Braide Fabrício Cunha/Ascom/CMSL

Depois de Imperatriz, Braide pretende dar um giro por Balsas, principal polo agrícola do estado na produção de soja. Na cidade, tem agenda marcada com o ex-prefeito Dr. Erik Augusto, recém-filiado ao PSDB. O partido, que desde os governos Dino esteve anilhado ao Palácio dos Leões, passou recentemente ao controle do deputado federal Juscelino Filho, que o assumiu após deixar o União Brasil e declarou estar aberto ao diálogo com todas as frentes políticas do estado.

Apesar de Braide ter ascendido sob estratégia de imagem e distanciamento simbólico da política tradicional, os dois neo-tucanos carregam histórico de investigações. Dr. Erik é réu em ação de improbidade administrativa movida pelo próprio Município de Balsas, por suspeita, junto a dois então secretários municipais, de irregularidades em contrato de obra escolar com prejuízo estimado de R$ 744 mil aos cofres públicos.

Juscelino, por sua vez, foi denunciado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) ao Supremo por suspeita de desvio de emendas parlamentares em obras da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) em Vitorino Freire, cidade que era administrada por sua irmã, Luanna Rezende. O processo corre em sigilo na corte sob relatoria de Dino, que em maio do ano passado suspendeu os prazos após a defesa apontar trechos ilegíveis na denúncia e determinou à PGR o reenvio da peça.

Fundador-Editor do Atual7. Especializado em jornalismo investigativo e de dados, utiliza a LAI para expor corrupção, abusos e violações no setor público e privado, fortalecendo o direito da sociedade à informação e a responsabilização de quem atenta contra o interesse público.

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