REPORTAGEM · SOCIEDADE E DIREITOS

Estudantes denunciam infestação de ratos, mofo e falta de acessibilidade nas moradias universitárias da UFMA

Das 694 solicitações de auxílio-moradia em 2025, apenas 192 foram atendidas. MPF arquivou inquérito após UFMA prometer melhorias

Por trás da fachada tombada pelo Iphan, estudantes dormem em rodízio na sala de informática para fugir do calor Kethlen Mata/Atual7
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Moradores das residências estudantis da UFMA (Universidade Federal do Maranhão) denunciam problemas de insalubridade e manutenção básica nos prédios mantidos pela instituição. Enquanto na REUFMA, que fica no Centro Histórico de São Luís, os ratos são a principal queixa, na unidade do Campus Bacanga, também na capital, prevalecem o mofo e a falta de acessibilidade física. O Atual7 visitou os dois prédios em janeiro e março de 2026 para acompanhar a situação das moradias.

A REUFMA e a Residência do Bacanga são duas das três casas de assistência estudantil em São Luís. A terceira, a CESM (Casa dos Estudantes Secundários do Maranhão), na Rua do Passeio, no Centro de São Luís, também enfrenta abandono estrutural, como mostrou o Atual7 na primeira reportagem da série Moradia Estudantil.

Localizada na Rua da Paz, a REUFMA abriga 23 dos 25 alunos que comporta, todos do sexo masculino, distribuídos em 8 quartos. O problema mais relatado é a infestação de ratos e baratas. Gustavo Cruz, 20, estudante de História e natural de Coroatá, é membro da coordenação da casa. Ele explicou que a presença das pragas é comum, mas que a UFMA iniciou em fevereiro uma dedetização e a troca dos ralos por modelos mais resistentes.

Apesar da intervenção, o problema persiste. Fernando Alves, 28, estudante de Matemática e natural de Bacuri, mostrou à reportagem que os ratos conseguem roer o material dos novos ralos e continuar entrando na residência. Ele já está na REUFMA há cinco anos e explica que a infestação já chegou a ser maior, mas que ainda é comum dar de cara com os animais pela casa.

Fotografia em close-up de um ralo quadrado em um piso de concreto úmido. O ralo está severamente danificado, quebrado e entupido com lama e detritos. Uma pedra grande e áspera está posicionada logo à esquerda do ralo.
Material plástico instalado após troca de ralos não impede entrada de ratos na residência Kethlen Mata/Atual7

“Basicamente cada quarto tem o seu próprio ratinho. Um ou dois, pelo menos. E muita barata também. É um pouco nojento. A pessoa está dormindo, o rato está passando por cima”, conta. Ele afirmou que houve uma curva de melhora em relação aos ratos entre 2022 e 2025, porque alguns moradores teriam trazido gatos para residência. “Aí assustou bastante os ratos, mas depois que os moradores saíram com os gatos, voltou”.

A precariedade atinge também o consumo básico. Gustavo relata que os próprios moradores precisam custear os filtros do bebedouro. “Esse filtro somos nós, moradores, que temos que comprar e trocar. Não é uma água de boa qualidade”, afirma o estudante. Ainda segundo ele, a limpeza da cisterna e das caixas d’água não é realizada pela UFMA há pelo menos um ano, o que reflete na qualidade do que sai das torneiras: turva e com acúmulo de resíduos, provavelmente de terra e areia do fundo dos reservatórios.

Gustavo reconhece que houve uma melhora recente no diálogo com a Proaes (Pró-Reitoria de Assistência Estudantil), citando a rapidez na troca de um micro-ondas e na manutenção de aparelhos de ar-condicionado. Porém, de acordo com ele, essa agilidade não se aplica a todos os setores. Na sala de informática, por exemplo, dos sete computadores disponíveis, apenas dois funcionam. O estudante diz ainda que diversos pedidos de reparo foram feitos há um ano, todos sem retorno.

Na mesma sala de informática, um pedaço de papelão é usado para tapar o buraco de um vidro quebrado em uma das janelas. Já em um dos corredores que leva aos quartos, o reboco de uma das paredes caiu e deixou os tijolos à mostra.

Para Venilson Cardoso, 24, estudante de Psicologia, o problema é o modelo de gestão. Ele explica que reparos em itens básicos ficam paralisados por semanas devido à dependência de contratos externos. “Como é uma instituição pública, ela depende de licitações e empresas terceirizadas. Isso atrapalha muito, porque quando a gente solicita algo urgente, como o conserto de um computador ou de um ar-condicionado que está derramando água, demora”, afirma.

Porém, quando os problemas são estruturais, o relacionamento com a Pró-Reitoria muda. Durante o período de chuvas, o Quarto 1 da REUFMA costuma sofrer com infiltração de água por frestas da janela do dormitório —que é de madeira e não tem nenhuma proteção pelo lado de fora. O ambiente também é usado como varal para as roupas dos alunos, a falta de um espaço adequado para isso acaba tornando o quarto o ambiente perfeito para mofo e umidade.

Vista interna de um quarto compartilhado com beliches, roupas penduradas em varais improvisados que cruzam o cômodo e uma mesa com utensílios em primeiro plano.
Sem espaço adequado para secar roupas, moradores usam o próprio quarto como varal Kethlen Mata/Atual7

Mesmo que na unidade não tenha morador com deficiência física, Gustavo expõe que já foram feitos pedidos para que a Proaes resolva a questão de acessibilidade na REUFMA. O prédio é estreito e dividido em dois andares. A única forma de chegar ao andar de cima é por uma escada. Além disso, os estudantes sofrem com a falta de climatização nos dormitórios. 

O impacto do calor nos quartos reflete-se no uso improvisado das áreas comuns. Durante a segunda visita do Atual7, em março, a reportagem encontrou um colchão posicionado no chão da sala de informática da REUFMA. Segundo Gustavo Cruz, a cena tornou-se parte da rotina da casa: os estudantes organizam um rodízio para dormir no cômodo, que é um dos poucos pontos climatizados da unidade.

“Já foi conversado com a Proaes sobre instalar ar-condicionado nos quartos, só que a Sinfra [Superintendência de Infraestrutura] diz que a fiação não dá conta de tantos ar-condicionados assim. E também não tem como mexer tão facilmente na fiação porque é um prédio histórico e não pode quebrar ele como qualquer outro”, expõe. Como está localizada no Centro Histórico de São Luís, a casa é tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Em nota enviada ao Atual7 em fevereiro, a UFMA informou que o controle de pragas nas residências é realizado de forma sistemática por meio de dedetizações agendadas periodicamente. A instituição garantiu que manutenções preventivas nos aparelhos de ar-condicionado ocorrem regularmente e que reparos corretivos são atendidos “prontamente sempre que solicitados”. 

No entanto, a universidade não respondeu a um segundo conjunto de questionamentos enviado pela reportagem no dia 31 de março, após a segunda visita. No novo contato, também via e-mail, o Atual7 solicitou esclarecimentos detalhados sobre a ineficácia dos ralos de plástico roídos por ratos, a falta de limpeza das cisternas e o estado de abandono da sala de informática e do Quarto 1. A gestão universitária também não se manifestou sobre o impasse técnico que impede a instalação de ar-condicionado nos dormitórios.

A cerca de 5 km da REUFMA fica a segunda unidade da Residência Universitária da UFMA, na Cidade Universitária Dom Delgado, no Bacanga. Diferente da primeira, ela abriga homens e mulheres em alas separadas. Na ala feminina, são 39 vagas (33 ocupadas) e na masculina, 35 vagas (todas ocupadas).

Prédio de dois andares pintado de verde claro com faixa branca horizontal. Várias janelas com grades e aparelhos de ar-condicionado na fachada. Pátio de terra batida na frente e céu com nuvens ao fundo.
Fachada da Residência Universitária na Cidade Universitária Dom Delgado, no Bacanga Kethlen Mata/Atual7

Na unidade, embora os quartos sejam climatizados, os alunos denunciam a demora na resolução de problemas técnicos. Uma moradora que não quis se identificar por medo de represálias conta que falhas nos aparelhos de ar-condicionado já forçaram dormitórios inteiros a funcionar em condições extremas. “Geralmente dá probleminha, mas eles fazem manutenção. Só que às vezes demora. Quando eu morava no quarto de baixo, a gente pedia ventilador emprestado. Teve uns dias que a gente dormiu com cinco ventiladores no quarto”, relembra a estudante.

Rubinaldo Cunha, 24, estudante de História, natural de Bacuri, aponta que o descaso afeta diretamente o desempenho acadêmico. Na sala de informática, o aparelho de ar-condicionado está sem funcionar há um mês. “Nos quartos está sendo mais rápido [o conserto], mas aqui [na informática] não funciona faz um tempo”, relata.

O problema na sala de informática não é apenas a climatização. Cunha relata que somente três computadores estão funcionando e que a impressora está quebrada. “É bem antiga, não está funcionando. O pessoal fica sem imprimir seus artigos acadêmicos. Faz muito tempo que estamos sem, faz mais de seis meses que está assim. O pessoal da Proaes sempre fala que o preço de uma impressora nova é muito caro”, diz.

Jovem negro de perfil sentado em uma cadeira de escritório, utilizando um computador em uma mesa com cadernos, livros, estojo e uma garrafa de água preta.
Na sala de informática da residência do Bacanga, apenas três computadores funcionam e a impressora está quebrada há seis meses Kethlen Mata/Atual7

No período de chuvas, vários dormitórios da casa ficam infestados por mofo, o que prejudica a saúde de alguns moradores. “Tinha muito quarto com mofo. O da minha amiga embaixo, muito mofo. Ela jogou umas coisas fora porque não deu para limpar. Minha sinusite piorou”, desabafa a aluna que pediu para não ser identificada na reportagem.

David Santos, 22, acadêmico de Serviço Social, natural de Rosário, é morador da unidade há 3 anos. Ele afirma que apesar das intervenções pontuais, os problemas hidráulicos e de infiltração nunca recebem uma solução definitiva. “Nunca era uma medida resolutiva, era mais paliativo”, afirma.

Em nota enviada ao Atual7, a UFMA apresenta a Diretoria de Acessibilidade (DACES) como o pilar de um sistema educacional inclusivo. Segundo a instituição, o órgão tem a missão de “eliminar as barreiras e promover a inclusão plena”, amparando-se na Lei Brasileira de Inclusão (nº 13.146/2015). Contudo, para quem vive na Unidade Dom Delgado, falta, principalmente, adequação do espaço físico.

Para David Santos, que é pessoa com deficiência física, a realidade é o oposto do suporte especializado prometido no papel. “Tu não vai ver um piso acessível. Esse piso é totalmente liso. Se tu molhar esse piso, tu pode estar de chinelo ou não, tu vai deslizar. Já vi pessoas que não têm deficiência nenhuma deslizar e cair”, relata.

O estudante afirma que a ausência de sinalização dificulta a locomoção. “O piso tátil não existe. Tu dá dez passos e o piso some”, denuncia.

A inexistência de rampas e elevadores, em um prédio onde o vão que deveria abrigar um elevador é ocupado por um bebedouro, também isola estudantes com mobilidade reduzida no pavimento térreo.

O MPF (Ministério Público Federal) informou, por meio de nota, que já investigou a UFMA no Inquérito Civil nº 1.19.000.001331/2023-34, instaurado para apurar irregularidades nas residências universitárias, mas que a apuração foi arquivada em maio de 2025. Segundo o órgão, a decisão baseou-se na apresentação, por parte da UFMA, de medidas corretivas, cronogramas de manutenção predial e comprovantes de licitação e entrega de novos mobiliários e eletrodomésticos. O MPF considerou, na ocasião, que as omissões administrativas haviam sido superadas pela instituição. O arquivamento, contudo, ressaltou o MPF, não impede a abertura de novos procedimentos de fiscalização caso surjam fatos novos.

Para Jhonatan Almada, diretor do CIEPP (Centro de Inovação para a Excelência das Políticas Públicas) e ex-reitor do IEMA (Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão), a precariedade identificada nas residências é reflexo de uma “baixa capacidade técnica e financeira das universidades em cuidarem de sua própria infraestrutura”. 

Almada reforça o ponto levantado pelos estudantes sobre a lentidão nos reparos. “Se não há acompanhamento incisivo e cotidiano sobre o trabalho das empresas [terceirizadas], elas levarão na valsa, prejudicando os estudantes e contribuindo para a deterioração dos prédios”, analisa.

O especialista também aponta um descompasso entre a demanda e a oferta de assistência. Segundo dados citados por Almada, das 694 solicitações por auxílio-moradia feitas na UFMA em 2025, apenas 192 foram atendidas —menos de um terço do necessário.

Procurada novamente pelo Atual7, via e-mail, no dia 31 de março, para se posicionar sobre a situação constada na segunda visita à Cidade Universitária Dom Delgado, a UFMA não retornou. A reportagem tentou ainda contato por telefone, mas as ligações não foram atendidas.

Jornalista dedicada à pautas sociais, direitos humanos e cultura local. Responsável pela cobertura investigativa de questões que impactam as comunidades maranhenses.

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