Moradores das residências estudantis da UFMA (Universidade Federal do Maranhão) denunciam problemas de insalubridade e manutenção básica nos prédios mantidos pela instituição. Enquanto na REUFMA, que fica no Centro Histórico de São Luís, os ratos são a principal queixa, na unidade do Campus Bacanga, também na capital, prevalecem o mofo e a falta de acessibilidade física. O Atual7 visitou os dois prédios em janeiro e março de 2026 para acompanhar a situação das moradias.
A REUFMA e a Residência do Bacanga são duas das três casas de assistência estudantil em São Luís. A terceira, a CESM (Casa dos Estudantes Secundários do Maranhão), na Rua do Passeio, no Centro de São Luís, também enfrenta abandono estrutural, como mostrou o Atual7 na primeira reportagem da série Moradia Estudantil.
Localizada na Rua da Paz, a REUFMA abriga 23 dos 25 alunos que comporta, todos do sexo masculino, distribuídos em 8 quartos. O problema mais relatado é a infestação de ratos e baratas. Gustavo Cruz, 20, estudante de História e natural de Coroatá, é membro da coordenação da casa. Ele explicou que a presença das pragas é comum, mas que a UFMA iniciou em fevereiro uma dedetização e a troca dos ralos por modelos mais resistentes.
Apesar da intervenção, o problema persiste. Fernando Alves, 28, estudante de Matemática e natural de Bacuri, mostrou à reportagem que os ratos conseguem roer o material dos novos ralos e continuar entrando na residência. Ele já está na REUFMA há cinco anos e explica que a infestação já chegou a ser maior, mas que ainda é comum dar de cara com os animais pela casa.

“Basicamente cada quarto tem o seu próprio ratinho. Um ou dois, pelo menos. E muita barata também. É um pouco nojento. A pessoa está dormindo, o rato está passando por cima”, conta. Ele afirmou que houve uma curva de melhora em relação aos ratos entre 2022 e 2025, porque alguns moradores teriam trazido gatos para residência. “Aí assustou bastante os ratos, mas depois que os moradores saíram com os gatos, voltou”.
A precariedade atinge também o consumo básico. Gustavo relata que os próprios moradores precisam custear os filtros do bebedouro. “Esse filtro somos nós, moradores, que temos que comprar e trocar. Não é uma água de boa qualidade”, afirma o estudante. Ainda segundo ele, a limpeza da cisterna e das caixas d’água não é realizada pela UFMA há pelo menos um ano, o que reflete na qualidade do que sai das torneiras: turva e com acúmulo de resíduos, provavelmente de terra e areia do fundo dos reservatórios.


Gustavo reconhece que houve uma melhora recente no diálogo com a Proaes (Pró-Reitoria de Assistência Estudantil), citando a rapidez na troca de um micro-ondas e na manutenção de aparelhos de ar-condicionado. Porém, de acordo com ele, essa agilidade não se aplica a todos os setores. Na sala de informática, por exemplo, dos sete computadores disponíveis, apenas dois funcionam. O estudante diz ainda que diversos pedidos de reparo foram feitos há um ano, todos sem retorno.
Na mesma sala de informática, um pedaço de papelão é usado para tapar o buraco de um vidro quebrado em uma das janelas. Já em um dos corredores que leva aos quartos, o reboco de uma das paredes caiu e deixou os tijolos à mostra.


Para Venilson Cardoso, 24, estudante de Psicologia, o problema é o modelo de gestão. Ele explica que reparos em itens básicos ficam paralisados por semanas devido à dependência de contratos externos. “Como é uma instituição pública, ela depende de licitações e empresas terceirizadas. Isso atrapalha muito, porque quando a gente solicita algo urgente, como o conserto de um computador ou de um ar-condicionado que está derramando água, demora”, afirma.
Porém, quando os problemas são estruturais, o relacionamento com a Pró-Reitoria muda. Durante o período de chuvas, o Quarto 1 da REUFMA costuma sofrer com infiltração de água por frestas da janela do dormitório —que é de madeira e não tem nenhuma proteção pelo lado de fora. O ambiente também é usado como varal para as roupas dos alunos, a falta de um espaço adequado para isso acaba tornando o quarto o ambiente perfeito para mofo e umidade.

Mesmo que na unidade não tenha morador com deficiência física, Gustavo expõe que já foram feitos pedidos para que a Proaes resolva a questão de acessibilidade na REUFMA. O prédio é estreito e dividido em dois andares. A única forma de chegar ao andar de cima é por uma escada. Além disso, os estudantes sofrem com a falta de climatização nos dormitórios.
O impacto do calor nos quartos reflete-se no uso improvisado das áreas comuns. Durante a segunda visita do Atual7, em março, a reportagem encontrou um colchão posicionado no chão da sala de informática da REUFMA. Segundo Gustavo Cruz, a cena tornou-se parte da rotina da casa: os estudantes organizam um rodízio para dormir no cômodo, que é um dos poucos pontos climatizados da unidade.


“Já foi conversado com a Proaes sobre instalar ar-condicionado nos quartos, só que a Sinfra [Superintendência de Infraestrutura] diz que a fiação não dá conta de tantos ar-condicionados assim. E também não tem como mexer tão facilmente na fiação porque é um prédio histórico e não pode quebrar ele como qualquer outro”, expõe. Como está localizada no Centro Histórico de São Luís, a casa é tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
Em nota enviada ao Atual7 em fevereiro, a UFMA informou que o controle de pragas nas residências é realizado de forma sistemática por meio de dedetizações agendadas periodicamente. A instituição garantiu que manutenções preventivas nos aparelhos de ar-condicionado ocorrem regularmente e que reparos corretivos são atendidos “prontamente sempre que solicitados”.
No entanto, a universidade não respondeu a um segundo conjunto de questionamentos enviado pela reportagem no dia 31 de março, após a segunda visita. No novo contato, também via e-mail, o Atual7 solicitou esclarecimentos detalhados sobre a ineficácia dos ralos de plástico roídos por ratos, a falta de limpeza das cisternas e o estado de abandono da sala de informática e do Quarto 1. A gestão universitária também não se manifestou sobre o impasse técnico que impede a instalação de ar-condicionado nos dormitórios.
A cerca de 5 km da REUFMA fica a segunda unidade da Residência Universitária da UFMA, na Cidade Universitária Dom Delgado, no Bacanga. Diferente da primeira, ela abriga homens e mulheres em alas separadas. Na ala feminina, são 39 vagas (33 ocupadas) e na masculina, 35 vagas (todas ocupadas).

Na unidade, embora os quartos sejam climatizados, os alunos denunciam a demora na resolução de problemas técnicos. Uma moradora que não quis se identificar por medo de represálias conta que falhas nos aparelhos de ar-condicionado já forçaram dormitórios inteiros a funcionar em condições extremas. “Geralmente dá probleminha, mas eles fazem manutenção. Só que às vezes demora. Quando eu morava no quarto de baixo, a gente pedia ventilador emprestado. Teve uns dias que a gente dormiu com cinco ventiladores no quarto”, relembra a estudante.
Rubinaldo Cunha, 24, estudante de História, natural de Bacuri, aponta que o descaso afeta diretamente o desempenho acadêmico. Na sala de informática, o aparelho de ar-condicionado está sem funcionar há um mês. “Nos quartos está sendo mais rápido [o conserto], mas aqui [na informática] não funciona faz um tempo”, relata.
O problema na sala de informática não é apenas a climatização. Cunha relata que somente três computadores estão funcionando e que a impressora está quebrada. “É bem antiga, não está funcionando. O pessoal fica sem imprimir seus artigos acadêmicos. Faz muito tempo que estamos sem, faz mais de seis meses que está assim. O pessoal da Proaes sempre fala que o preço de uma impressora nova é muito caro”, diz.

No período de chuvas, vários dormitórios da casa ficam infestados por mofo, o que prejudica a saúde de alguns moradores. “Tinha muito quarto com mofo. O da minha amiga embaixo, muito mofo. Ela jogou umas coisas fora porque não deu para limpar. Minha sinusite piorou”, desabafa a aluna que pediu para não ser identificada na reportagem.
David Santos, 22, acadêmico de Serviço Social, natural de Rosário, é morador da unidade há 3 anos. Ele afirma que apesar das intervenções pontuais, os problemas hidráulicos e de infiltração nunca recebem uma solução definitiva. “Nunca era uma medida resolutiva, era mais paliativo”, afirma.
Em nota enviada ao Atual7, a UFMA apresenta a Diretoria de Acessibilidade (DACES) como o pilar de um sistema educacional inclusivo. Segundo a instituição, o órgão tem a missão de “eliminar as barreiras e promover a inclusão plena”, amparando-se na Lei Brasileira de Inclusão (nº 13.146/2015). Contudo, para quem vive na Unidade Dom Delgado, falta, principalmente, adequação do espaço físico.
Para David Santos, que é pessoa com deficiência física, a realidade é o oposto do suporte especializado prometido no papel. “Tu não vai ver um piso acessível. Esse piso é totalmente liso. Se tu molhar esse piso, tu pode estar de chinelo ou não, tu vai deslizar. Já vi pessoas que não têm deficiência nenhuma deslizar e cair”, relata.
O estudante afirma que a ausência de sinalização dificulta a locomoção. “O piso tátil não existe. Tu dá dez passos e o piso some”, denuncia.
A inexistência de rampas e elevadores, em um prédio onde o vão que deveria abrigar um elevador é ocupado por um bebedouro, também isola estudantes com mobilidade reduzida no pavimento térreo.


O MPF (Ministério Público Federal) informou, por meio de nota, que já investigou a UFMA no Inquérito Civil nº 1.19.000.001331/2023-34, instaurado para apurar irregularidades nas residências universitárias, mas que a apuração foi arquivada em maio de 2025. Segundo o órgão, a decisão baseou-se na apresentação, por parte da UFMA, de medidas corretivas, cronogramas de manutenção predial e comprovantes de licitação e entrega de novos mobiliários e eletrodomésticos. O MPF considerou, na ocasião, que as omissões administrativas haviam sido superadas pela instituição. O arquivamento, contudo, ressaltou o MPF, não impede a abertura de novos procedimentos de fiscalização caso surjam fatos novos.
Para Jhonatan Almada, diretor do CIEPP (Centro de Inovação para a Excelência das Políticas Públicas) e ex-reitor do IEMA (Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão), a precariedade identificada nas residências é reflexo de uma “baixa capacidade técnica e financeira das universidades em cuidarem de sua própria infraestrutura”.
Almada reforça o ponto levantado pelos estudantes sobre a lentidão nos reparos. “Se não há acompanhamento incisivo e cotidiano sobre o trabalho das empresas [terceirizadas], elas levarão na valsa, prejudicando os estudantes e contribuindo para a deterioração dos prédios”, analisa.
O especialista também aponta um descompasso entre a demanda e a oferta de assistência. Segundo dados citados por Almada, das 694 solicitações por auxílio-moradia feitas na UFMA em 2025, apenas 192 foram atendidas —menos de um terço do necessário.
Procurada novamente pelo Atual7, via e-mail, no dia 31 de março, para se posicionar sobre a situação constada na segunda visita à Cidade Universitária Dom Delgado, a UFMA não retornou. A reportagem tentou ainda contato por telefone, mas as ligações não foram atendidas.