REPORTAGEM · SOCIEDADE E DIREITOS

São Luís aprova lei contra ludopatia, mas norma segue sem promulgação quase dez meses depois

Braide deixou prazo vencer sem sancionar. Câmara alega fila de projetos e não dá previsão. Poder público municipal não tem protocolo para atender viciados em apostas

Plenário da Câmara Municipal de São Luís. Projeto contra ludopatia foi aprovado por unanimidade em junho de 2025, mas segue sem promulgação Leonardo Mendonça
Direitos Humanos Saúde Transparência e Controle Social

A Câmara Municipal de São Luís aprovou em junho de 2025 o Projeto de Lei nº 0027/2025, que cria o Programa de Prevenção aos Impactos das Apostas Online (Bets) e de Combate à Ludopatia. Quase dez meses depois, a norma ainda não foi promulgada e não há previsão para que isso aconteça.

O Atual7 solicitou informações à prefeitura sobre a proposta aprovada por unanimidade pela Câmara, por meio da LAI (Lei de Acesso à Informação), em novembro de 2025. A resposta veio apenas três meses depois, fora do prazo legal, e informou que o período para sanção ou veto por Eduardo Braide (PSD) havia se encerrado. O projeto foi devolvido à Câmara para promulgação pelo Legislativo.

Pela Lei Orgânica de São Luís, o prefeito tem 15 dias para sancionar ou vetar um projeto de lei aprovado pela Câmara. Se não se manifestar nesse prazo, ocorre a chamada sanção tácita. A partir daí, o prefeito tem 48 horas para promulgar a lei. Se não o fizer, a responsabilidade passa ao presidente da Câmara e, em seguida, ao vice-presidente, em prazos iguais. Sem promulgação, a lei fica no limbo: foi aprovada, mas não existe formalmente, pois não entrou em vigor.

Procurado, o gabinete da vereadora Rosana da Saúde (Republicanos), autora da proposta, informou que a promulgação está “em processo de ordem”. Segundo a assessoria, após o retorno do projeto ao Legislativo, é necessário solicitar numeração para que a Presidência da Casa, sob comando do vereador Paulo Victor (PSB), realize a promulgação, respeitando uma fila de projetos pendentes.

O gabinete de Rosana da Saúde atribuiu a demora da promulgação da lei aos recessos de fim de ano, mas não informou prazos concretos nem a posição do projeto na fila. Na página do histórico de tramitação das proposições da CMSL, a última movimentação da proposta é da data da aprovação do texto, e no DOM (Diário Oficial do Município), consulta feita nesta quarta-feira (8) aos termos “ludopatia” e “impactos das apostas online” não retornou resultado.

Vereadora Rosana da Saúde fala ao microfone durante sessão no plenário da Câmara Municipal de São Luís.
Vereadora Rosana da Saúde (Republicanos), autora do PL contra ludopatia aprovado em junho de 2025. Leonardo Mendonça

A ludopatia é um transtorno psicológico caracterizado pela necessidade compulsiva de jogar, o indivíduo não possui controle dos impulsos apesar de consequências negativas. Este transtorno é reconhecido e classificado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como um distúrbio de controle de impulsos. Embora frequentemente associada a cassinos, a ludopatia tem se manifestado de forma crescente por meio de apostas online, que operam com fácil acesso, estímulos constantes e forte apelo psicológico.

O Maranhão já aparece em investigações sobre o tema. Em março, mostrou o Atual7, a Vara Especial Colegiada dos Crimes Organizados de São Luís manteve o bloqueio de redes sociais da influenciadora Skarlete Melo, que promovia o “jogo do tigrinho”, caça-níquel online ilegal no Brasil. Segundo o processo, ela recebia R$ 250 mil por semana para divulgar Fortune Tiger, um dos tipos de jogos que, segundo relatório publicado na revista científica The Lancet Public Health, oferecem maior risco de dependência.

Desde o ano passado, o Atual7 questiona diferentes órgãos da gestão municipal, entre eles o próprio gabinete do prefeito —que, com a renúncia de Braide para disputar o Palácio dos Leões, passou para o comando de Esmênia Miranda (PSD), então vice-prefeita.

Segundo a Semcas (Secretaria Municipal da Criança e Assistência Social), um Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) acompanha desde 2023 uma família em situação de violação de direitos e vulnerabilidade social extrema causada pelo vício em jogos de apostas online. O caso, de acordo com a pasta, envolve endividamento severo, dívidas com agiotas e grave comprometimento da proteção integral de crianças e adolescentes que vivem no núcleo familiar.

A própria Semcas reconhece, porém, que não existe classificação interna, protocolo ou mecanismo específico para atendimento de pessoas com ludopatia. Os casos são registrados de forma genérica, a partir das violações de direitos identificadas. Sem dados consolidados, não é possível saber quantas famílias em São Luís enfrentam situação semelhante.

Por se tratar de caso sensível, para evitar a identificação do paciente atendido pelo Creas, a unidade do Creas não será revelada pela reportagem.

O Atual7 também questionou a Semus (Secretaria Municipal de Saúde) e a Semed (Secretaria Municipal de Educação) sobre levantamentos, protocolos de atendimento e registros relacionados à ludopatia. Nenhum dos órgãos respondeu.

O projeto de combate à ludopatia em São Luís, quando entrar em vigor, criará um programa de prevenção, conscientização e atendimento a pessoas afetadas pelo vício em apostas online. O texto aprovado pelos vereadores se baseia em princípios como dignidade humana, direito à saúde mental e proteção de crianças e adolescentes.

Esta reportagem é o ponto de partida da série O Próximo Jogo, em que o Atual7 investiga os impactos da ludopatia e das apostas online em São Luís e no Maranhão.

Jornalista focada na investigação de questões urbanas e serviços públicos que impactam diretamente a vida dos maranhenses. Dedica-se à cobertura da prestação de serviços essenciais, políticas públicas de infraestrutura urbana e questões relacionadas aos direitos de populações vulneráveis.

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