NOTíCIA · SOCIEDADE E DIREITOS

Justiça impede avanço de máquinas em comunidade tradicional de Fernando Falcão

Decisão da Vara Agrária de Imperatriz foi tomada em ação movida por moradores da Comunidade Riacho Fundo
Caminhão basculante grande, branco e com marcas de barro e ferrugem, estacionado em estrada de terra avermelhada, em região de vegetação rural com árvores de médio porte dos dois lados.
Caminhão em estrada de acesso à Comunidade Riacho Fundo, em Fernando Falcão, durante entrada de máquinas da Terra Forte Agro na área. Comunidade Riacho Fundo/cedida ao Atual7
Conflitos Territoriais Direitos Humanos Povos e Comunidades Tradicionais

A Vara Agrária de Imperatriz determinou, na noite desta quarta-feira (14), que a empresa Terra Forte Agro e o empresário Alexandre José Soares Neto suspendam qualquer intervenção em áreas descritas como ocupadas na Comunidade Riacho Fundo e em outras quatro comunidades tradicionais camponesas de Fernando Falcão, no interior do Maranhão.

A decisão, assinada pelo juiz Delvan Tavares Oliveira, foi tomada em ação de usucapião com pedido de manutenção de posse protocolada por moradores da Comunidade Riacho Fundo no último dia 12. O magistrado indeferiu o pedido específico de manutenção de posse, por entender que a tutela possessória demanda ação própria, mas adotou, no exercício do poder geral de cautela, medida de preservação do estado de fato da área.

A ordem se estende a prepostos, empregados, contratados ou terceiros que atuem por ordem ou interesse dos demandados, e proíbe especificamente supressão vegetal, abertura de novas áreas, demolição, remoção ou destruição de casas, escolas, roças, currais, cercas, benfeitorias e áreas de extrativismo, bem como qualquer outra alteração substancial do estado de fato da área, até nova deliberação.

Segundo a decisão, o descumprimento poderá ensejar aplicação de multa diária, responsabilização por perdas e danos e outras medidas coercitivas. O magistrado registrou também que a medida não atribui posse a nenhuma das partes, apenas impede alterações materiais relevantes enquanto o processo tramita.

No último dia 7 de maio, caçambas, tratores e correntões agrícolas entraram em terras ocupadas há gerações por famílias da Comunidade Riacho Fundo.

Trator amarelo de grande porte, com cabine reforçada, parado em estrada de terra avermelhada, em meio a vegetação de árvores de médio porte.
Trator da Terra Forte Agro em estrada de acesso à Comunidade Riacho Fundo, alvo de ação de usucapião na Vara Agrária de Imperatriz. Comunidade Riacho Fundo/cedida ao Atual7

Edimilson Martins de Oliveira do Nascimento, morador da comunidade e um dos autores da ação na Justiça, relatou ao Atual7 que viu dois tratores, uma caminhonete Hilux e correntões agrícolas avançando até a frente da casa onde mora. Segundo ele, os moradores pediram que qualquer reivindicação sobre a área fosse discutida diretamente com as famílias, que ocupam o território há gerações. Após a solicitação, os trabalhadores interromperam a operação e disseram que aguardariam orientação do contratante. Um trator continuava estacionado em frente à casa da sogra dele até a quarta-feira (13), segundo Edimilson.

As máquinas pertencem à Terra Forte Agro, sediada em Paragominas, no Pará, que reivindica a área como propriedade privada. Vídeos registrados por moradores mostram as máquinas operando na localidade. Alexandre Soares Neto é indicado no CAR (Cadastro Ambiental Rural) e em documentação administrativa como representante da empresa e da Fazenda Águas Claras, denominação da propriedade reivindicada na área.

Edimilson disse ao Atual7 não conhecer o empresário pessoalmente, e contou que um morador da região diz representá-lo localmente. “Esse moço [Alexandre Soares Neto] a gente não conhece. Um vizinho da gente é que diz que representa ele aqui no meio, entendeu? Mas esse aí, ninguém conhece aqui, não. A gente nunca viu”, relatou.

Ainda no dia 7, o advogado da comunidade, Roniery Rodrigues Machado, protocolou boletim de ocorrência na Delegacia Virtual do Maranhão sobre o episódio e encaminhou ofício à Sedihpop (Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular), solicitando “providências urgentes” diante do que classificou, no documento, como “invasão das terras da Comunidade Tradicional de Riacho Fundo”. Cinco dias depois, foi distribuída a ação de usucapião na Vara Agrária de Imperatriz.

Questionada ainda no início da semana sobre as providências adotadas ou previstas e sobre eventual articulação com outros órgãos, a Sedihpop não retornou ao contato.

Homem de pele morena, cabelo curto grisalho, com camisa laranja desabotoada e bermuda azul, em pé com as mãos na cintura, à frente de uma casa de tijolos vermelhos com telhado de telhas de cerâmica, ao entardecer.
Edimilson Martins de Oliveira do Nascimento, morador da Comunidade Riacho Fundo e um dos autores da ação de usucapião contra a Terra Forte Agro. Comunidade Riacho Fundo/cedida ao Atual7

Em nota enviada ao Atual7 na última segunda-feira (11) pelo escritório de Alexandre Soares Neto, que é advogado e representa juridicamente a empresa, a Terra Forte Agro disse que os equipamentos estavam operando exclusivamente dentro dos limites de sua propriedade privada, “regularmente adquirida, registrada e licenciada”, e negou que houve ingresso em território pertencente à Comunidade Riacho Fundo. A empresa afirmou ainda que a área objeto da supressão vegetal e da operação das máquinas “não é ocupada por posseiros”. Esse ponto entra em conflito direto com o relato de Edimilson, segundo o qual as máquinas pararam diante da casa onde ele mora com a família.

O escritório também enviou à reportagem o registro de licenciamento ambiental da Fazenda Águas Claras, o recibo de inscrição do imóvel no Cadastro Ambiental Rural e a Certidão de Uso e Ocupação do Solo emitida pela Prefeitura de Fernando Falcão, documentos solicitados pelo Atual7.

A Terra Forte Agro repudiou na nota questionamentos sobre relatos de intimidação aos moradores e alegou que trabalhadores responsáveis pela operação das máquinas teriam sido ameaçados e impedidos de exercer suas atividades, em situação que, segundo a empresa, está sendo “formalmente apurada pelas vias legais competentes”. Informou também que vai adotar medidas judiciais contra a divulgação de conteúdos em redes sociais que atribuem à empresa a prática de “grilagem de terras”, o que, segundo a nota, não tem fundamento porque o imóvel rural é “regularmente registrado, titulado e legalizado”.

Procurado, o Iterma (Instituto de Colonização e Terras do Maranhão) informou que a Comunidade Riacho Fundo “não está inserida em gleba estadual arrecadada pelo Estado do Maranhão”, razão pela qual, segundo a autarquia, não há processo de regularização fundiária em andamento no órgão referente à área.

O Iterma informou também que, até aquela data, não havia recebido oficialmente relatos, comunicações formais ou registros administrativos sobre conflitos fundiários envolvendo a comunidade, nem informações sobre eventual sobreposição cadastral em nome da Terra Forte Agro ou de Alexandre José Soares Neto.

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