NOTíCIA · VIDA PúBLICA

Seduc não explica por que pedido de reforma da Casa dos Estudantes está parado há oito meses

Cobrada pelo Ministério Público, pasta respondeu fora do prazo e não esclareceu paralisação de processo. Imóvel está sem obras desde 2006
Mulher de cabelos cacheados escuros e óculos fala ao microfone que segura na mão direita, com a mão esquerda erguida em gesto. Veste blusa bege de mangas curtas e um crachá de cordão no pescoço.
Secretária de Educação do Maranhão, Jandira Dias comanda a Seduc desde agosto de 2024 Tânia Rêgo/Agência Brasil
Direitos Humanos Educação Transparência e Controle Social

Um pedido de reforma da CESM (Casa dos Estudantes Secundários do Maranhão) está parado na Seduc (Secretaria de Estado da Educação) há oito meses. O processo não tem movimentação desde 25 de setembro de 2025, quando foi encaminhado à Supervisão de Obras da pasta para a elaboração do projeto e do orçamento. Cobrada pelo Ministério Público do Maranhão para justificar essa paralisação, a secretaria respondeu fora do prazo e não explicou por que o processo parou.

A cobrança do MP-MA foi motivada por reportagem do Atual7, que em março mostrou que o casarão, sem reforma desde 2006, seguia habitado por quatro estudantes em meio a tetos desabando, pisos perfurados e infiltrações. No mês seguinte, a 2ª Promotoria de Justiça de Defesa da Educação vistoriou o imóvel e confirmou a situação.

Fachada da Casa dos Estudantes Secundários do Maranhão (CESM), no Centro de São Luís, mostrando sinais de deterioração após duas décadas sem reforma
Casarão que já abrigou cerca de 50 estudantes e foi palco de mobilizações como a Greve da Meia Passagem hoje tem placas de proibição de entrada e aparência de abandono Kethlen Mata/Atual7

A CESM é uma entidade filantrópica de utilidade pública, e não um imóvel da administração estadual. O prédio, localizado na Rua do Passeio, no Centro de São Luís, em área de tombamento histórico, foi doado pelo Estado à entidade em 1952, e a Seduc paga as contas de água e energia da casa desde o início das atividades.

A vistoria do Ministério Público ocorreu em 17 de abril. Relatório de Inspeção obtido pela reportagem descreve o imóvel em estado avançado de degradação, com infiltrações, rachaduras, pisos perfurados, tetos em processo de desabamento e uma escada de ferro com elevado grau de corrosão. Além disso, o acesso à varanda foi considerado inviabilizado pelo risco de acidentes.

Assinado pelo promotor de Justiça Lindonjonsom Gonçalves de Sousa e pela técnica ministerial Sâmia Maria Verri Carneiro Carvalho, o documento recomenda a interdição imediata das áreas com risco de desabamento, a realização de reforma com cronograma e orçamento, medidas de limpeza e, caso as obras inviabilizem a permanência com segurança, a realocação provisória dos quatro estudantes que residem no local. Para o Ministério Público, a situação representa potencial violação a direitos fundamentais, como a dignidade da pessoa humana e o direito à educação.

Com base na inspeção, o Ministério Público expediu, em 27 de abril, ofício no qual apontou severa morosidade no andamento das demandas da casa e fixou dez dias para o Estado apresentar o cronograma da reforma, uma data para o restabelecimento da vigilância e a justificativa para a paralisação dos processos. O prazo venceu em 7 de maio, e a Seduc respondeu apenas em 28 de maio, 21 dias depois.

A pasta é comandada por Jandira Dias Araujo Silva, nomeada pelo governador Carlos Brandão (MDB) em agosto de 2024. Na resposta, a secretaria informou que o processo de reforma está na Supervisão de Obras da pasta, com conclusão de elaboração de projeto e orçamento previsto apenas para agosto deste ano. Ainda segundo informou, após essa etapa, a pasta ainda deve definir para onde encaminhar o processo, se para a Sinfra (Secretaria de Estado da Infraestrutura) ou à Segov (Secretaria de Estado de Governo) para a execução. A obra não tem data.

Esse mesmo encaminhamento, à época apontado para a Sinfra, já havia sido definido internamente pela Seduc em setembro de 2025, antes de o processo estacionar. Sobre a pergunta central do promotor, por que o processo ficou parado, a Seduc não respondeu.

Amplo salão coletivo com colunas de sustentação, fogão metálico em primeiro plano e teto com buracos.
Antigo dormitório coletivo, o maior quarto da CESM Kethlen Mata/Atual7

A cobrança do Ministério Público provocou o andamento de outro processo relacionado à Casa dos Estudantes Secundários do Maranhão, de implantação de guarda patrimonial, armada ou desarmada. O pedido, feito em outubro de 2025 pelo vice-presidente da CESM, Elias Pereira dos Santos, havia sido concluído pela própria secretaria em 29 de janeiro último, sem solução, e só foi reaberto em 19 de maio, depois que o MP-MA cobrou explicações. À promotoria, a secretaria afirmou que não dispõe de vigilância armada em seu quadro e que depende da conclusão de um processo seletivo para lotar vigias desarmados, sem indicar quando o serviço seria restabelecido.

A atuação do Ministério Público recai sobre um histórico que se arrasta há mais de um ano. O alerta mais antigo foi protocolado em outubro de 2024, quando a CESM pediu à Sedihpop (Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular) uma visita ao prédio e intermediação para a reforma. Em dezembro daquele ano, a secretaria encaminhou o pedido ao próprio Brandão, à Sinfra e à Seduc, citando risco iminente às pessoas que residem no local. Esse processo tramitou pela Seduc, pela Sinfra e pelo gabinete do governador, e foi concluído na própria Sedihpop em outubro de 2025, sem que a reforma saísse do papel.

O Atual7 procurou a Seduc em 27 de maio e reiterou o pedido em 2 de junho, por e-mail, questionando quais medidas foram adotadas diante dos apontamentos do MP-MA. Não houve retorno.

Segundo o promotor Lindonjonsom Sousa, o Ministério Público pretende firmar um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com o Estado para resolver a situação analisada nos dois processos.

Jornalista dedicada à pautas sociais, direitos humanos e cultura local. Responsável pela cobertura investigativa de questões que impactam as comunidades maranhenses.

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.