REPORTAGEM · SOCIEDADE E DIREITOS

Moradores do Sá Viana convivem com risco de deslizamento e fazem contenções com recursos próprios

Levantamento do Atual7 a partir de dados da Sudec e da Semusc aponta 5.844 pessoas vivendo em 87 áreas de risco em São Luís

Moradia no alto de uma encosta do Sá Viana, no Itaqui-Bacanga, onde famílias acessam as casas por escadas improvisadas e convivem com o risco de deslizamento. Rayane Castro/Atual7
Direitos Humanos Habitação Periferias e Território

Quando chove forte, a água invade a casa de Neyde Costa e a barreira atrás cede um pouco mais. Ela mora na rua Nova, uma estreita faixa de casas espremida entre encostas no Sá Viana, bairro da região do Itaqui-Bacanga, em São Luís, onde vive desde 2012, quando chegou do interior do Maranhão para estudar e trabalhar. Virou liderança comunitária e é ela quem os vizinhos chamam para resolver demandas relacionadas à infraestrutura, drenagem e contenção de barreiras na área onde, segundo os moradores, conviver com o risco faz parte da rotina.

O Atual7 esteve duas vezes no bairro em maio, durante a apuração desta reportagem, e percorreu com os moradores as encostas onde vivem. Foi numa ocorrência como essas, conta Neyde, que ela viu de perto o limite do socorro público. Uma barreira ameaçava desabar sobre duas casas, e os moradores entraram na lama de manhã cedo para tirar terra e água de dentro das residências. Ela ligou para a Defesa Civil Municipal. Depois de muita insistência, a equipe apareceu, fez a vistoria e disse que voltaria outro dia. “Disseram que só poderiam colocar sacos de areia e que retornariam na segunda-feira porque tinham muitos problemas na cidade para resolver e não podiam ficar focados só ali”, relata. Foi preciso acionar a Guarda Municipal para que a intervenção saísse no mesmo dia. “Só fizeram depois de muita insistência”, afirma.

Mulher de pé num quintal de terra, ao lado de um grande tronco de árvore caído, cercada por vegetação densa. Ao fundo, à direita, uma casa simples entre o mato.
Neyde Costa, liderança comunitária do Sá Viana, no Itaqui-Bacanga, na encosta onde mora e acompanha as demandas dos vizinhos por contenção e infraestrutura. Rayane Castro/Atual7

Sem obra que resolvesse, os próprios moradores assumiram a contenção. Em vários pontos do bairro, famílias se cotizaram, pegaram empréstimo, juntaram material e levantaram barreira por conta própria. Gorete Cutrim, no bairro há cerca de trinta anos, mostrou à reportagem o muro que a família ergueu. Segundo ela, quando chove forte, enquanto alguém fica de olho na encosta, outros tiram os móveis do chão. “Durante a noite a gente não dorme, fica em vigilância. Quando começa a chover, a gente já organiza as coisas dentro de casa e alguém precisa ficar aqui”, conta. Ela lembra que já viu um deslizamento levar parte da casa do filho, que o muro que tenta segurar o barro foi pago com um empréstimo da irmã, e que a tubulação que escoa a água por baixo da casa também saiu do bolso da família. O que Gorete espera, diz, é que no período sem chuvas o poder público construa um muro de contenção de verdade.

No alto de um morro no bairro, onde vive com os pais há trinta anos, o morador Marcelo Carvalho mostrou à reportagem o terreno que não seca, mesmo em dias sem chuva. “A população se juntou, cavou tudo com balde para tirar a lama. Entrou água nas casas e foi aquele sufoco”, lembra, sobre a vez em que uma barreira cedeu. Os sacos de areia que colocaram depois não tranquilizam ninguém. “Cada um dava um dinheiro, comprava material e a gente tentava fazer uma contenção”, diz. Ele teme que o morro inteiro venha abaixo. “Se isso aqui desabar, as casas vêm caindo uma atrás da outra. Quem estiver aqui embaixo vai morrer”, alerta.

Maria Domingues mudou-se para uma encosta do Sá Viana há dois meses, vinda do interior maranhense, por não ter outra alternativa de moradia. Diz saber do risco e não ter para onde ir. “Não tem outro lugar para eu ficar, aí estou morando aqui”, resume. Perguntada como se protege de um deslizamento, responde que, por ora, não há o que fazer.

Para o geógrafo Luiz Eduardo Neves dos Santos, professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), essa permanência tem origem antiga. A cidade cresceu sem planejamento, empurrando quem não tem renda para os terrenos que o mercado descarta, os mangues, os fundos de lixão, as encostas. “As pessoas acabam ocupando esses espaços porque não têm opção. O mercado imobiliário não quer essas áreas e essas populações, por falta do direito à moradia, acabam vivendo em locais sujeitos a tragédias”, afirma. Em encostas de forte inclinação, o solo sedimentar de São Luís encharca e perde firmeza na chuva, diz o professor. “Quando você ocupa áreas com mais de 45 graus de inclinação, o risco se torna muito maior. O solo encharca, perde estabilidade e acaba deslizando. Se houver casas em cima, essas casas podem cair”, explica.

O pesquisador acrescenta que viver assim fere um direito fundamental. Quem está nessas áreas fica sem saneamento, sem moradia segura, sem transporte, à margem do que a cidade oferece, condição que ele resume, recorrendo ao geógrafo Milton Santos, como a de uma “cidadania mutilada”. E essa exclusão, observa, tem cor e renda. No país, segundo o Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população das favelas e comunidades urbanas é proporcionalmente mais negra que a do restante do território. O Sá Viana, comunidade urbana em situação precária, reflete esse padrão, em que a desigualdade racial determina quem fica com os piores lugares para morar, o que os estudos urbanos chamam de racismo territorial. “Não é por acaso. São pessoas que historicamente têm as menores rendas e os piores empregos. É resultado de um processo histórico e de uma sociedade racista”, afirma.

Para o professor, a comparação com outras capitais ajuda a dimensionar o caso de São Luís. Ele observa que cidades maiores costumam ter Defesa Civil mais estruturada e mapeamento mais detalhado das áreas de risco. O relevo da capital maranhense, diz, tem menos morros que o de Recife, Salvador ou Rio de Janeiro, o que não significa ausência de perigo: ainda há encostas em outras áreas do próprio Itaqui-Bacanga e outros pontos da cidade, como o Sacavém e o Anil, onde, na chuva, o solo encharcado pode escorregar.

Os números oficiais confirmam o tamanho do problema. A partir do cruzamento do mapeamento e análise das áreas de risco de São Luís, feitos pela Sudec (Superintendência de Proteção e Defesa Civil), e das pranchas de setorização produzidas pela Semusc (Secretaria Municipal de Segurança com Cidadania), ambas obtidos via LAI (Lei de Acesso à Informação), o Atual7 contabilizou 5.844 pessoas vivendo em 87 áreas de risco em São Luís, expostas a deslizamentos, enchentes, alagamentos e erosão. Dessas, 31 ficam na macroárea Itaqui-Bacanga, onde está o Sá Viana. No bairro, a setorização mapeia cinco áreas: Aquiles Lisboa e Permínio Lindoso; Tomás de Aquino e Militana Ferreira; Maria da Paz, São Geraldo, Bela Vista e Travessa do Campo; Travessa Alberto Sales; e Travessa São Pedro, no Piancó. Entre janeiro e maio de 2026, a Defesa Civil registrou 257 ocorrências e fez 245 vistorias técnicas em áreas vulneráveis. Há um Plano de Contingência, atualizado em 2024, que prevê monitorar as áreas, emitir alertas e mobilizar equipes.

Os documentos, porém, não registram o que é feito pela gestão municipal de São Luís depois das vistorias. Não há, nos relatórios, indicador de efetividade: nenhum dado sobre quantas recomendações viraram obra, quantas encostas receberam intervenção definitiva, quantas áreas deixaram de ser de risco. Os laudos diagnosticam e param ali, enquanto os moradores do Sá Viana seguem comprando cimento entre vizinhos. O professor da UFMA avalia que o monitoramento dessas áreas, embora permanente, não se traduz em obra. Segundo ele, o investimento se concentra nas áreas valorizadas da cidade, enquanto a periferia segue sem drenagem e sem contenção. “Você tem Plano Diretor, legislação e instrumentos urbanísticos, mas a fiscalização é muito aquém do necessário. As pessoas continuam sujeitas a todo tipo de risco”, afirma.

Neyde atribui à Semosp (Secretaria Municipal de Obras e Serviços Públicos) a demolição de casas no bairro sem a obra que deveria ter vindo em seguida. Depois que famílias foram retiradas das residências ameaçadas, conta, a estabilização da encosta nunca foi feita, e os moradores ergueram sozinhos a estrutura. “Eles fizeram colunas, contenção, compraram material do próprio bolso. A prefeitura nunca voltou para resolver”, relata.

O Atual7 procurou os órgãos municipais ligados ao atendimento e à contenção nas áreas de risco. A Defesa Civil Municipal foi questionada em 18 e 27 de maio, 11 e 15 de junho, sobre os relatos de demora no atendimento e sobre o episódio em que uma ocorrência de risco iminente teria sido tratada como não prioritária. A SEMOSP foi procurada em 15 e 27 de maio, 11 e 15 de junho, sobre a demolição das casas e a contenção das encostas. À Prefeitura de São Luís, nas mesmas datas, foram dirigidas perguntas sobre proteção e assistência às famílias. Nenhum respondeu.

A reportagem procurou ainda a prefeita Esmênia Miranda (PSD), que assumiu em 31 de março de 2026 e foi vice-prefeita na gestão anterior, quando o mapeamento de risco foi feito. As perguntas trataram do que a gestão atual tem feito pelo Sá Viana e do que ela sabia, como vice, sobre a situação dessas famílias. Não houve retorno. Também foi procurado em 18 e 27 de maio e 15 de junho o ex-prefeito Eduardo Braide (PSD), que administrou a capital maranhense entre 2021 e março de 2026 e hoje é pré-candidato ao governo do Maranhão, sobre as obras de contenção do período e o que responde aos moradores que passaram a gestão no risco. Nem Esmênia nem Braide retornaram o contato.

Em 27 de maio, numa audiência pública convocada pelo MP-MA (Ministério Público do Estado do Maranhão), os moradores do Sá Viana voltaram a pedir as obras estruturais. Neyde diz que a comunidade não quer deixar o bairro. “Nós não queremos sair das nossas casas. O que a gente quer é que a prefeitura faça a obra de contenção que foi prometida e nunca foi feita”, exige.

Jornalista focada na investigação de questões urbanas e serviços públicos que impactam diretamente a vida dos maranhenses. Dedica-se à cobertura da prestação de serviços essenciais, políticas públicas de infraestrutura urbana e questões relacionadas aos direitos de populações vulneráveis.

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.