Quando chove forte, a água invade a casa de Neyde Costa e a barreira atrás cede um pouco mais. Ela mora na rua Nova, uma estreita faixa de casas espremida entre encostas no Sá Viana, bairro da região do Itaqui-Bacanga, em São Luís, onde vive desde 2012, quando chegou do interior do Maranhão para estudar e trabalhar. Virou liderança comunitária e é ela quem os vizinhos chamam para resolver demandas relacionadas à infraestrutura, drenagem e contenção de barreiras na área onde, segundo os moradores, conviver com o risco faz parte da rotina.
O Atual7 esteve duas vezes no bairro em maio, durante a apuração desta reportagem, e percorreu com os moradores as encostas onde vivem. Foi numa ocorrência como essas, conta Neyde, que ela viu de perto o limite do socorro público. Uma barreira ameaçava desabar sobre duas casas, e os moradores entraram na lama de manhã cedo para tirar terra e água de dentro das residências. Ela ligou para a Defesa Civil Municipal. Depois de muita insistência, a equipe apareceu, fez a vistoria e disse que voltaria outro dia. “Disseram que só poderiam colocar sacos de areia e que retornariam na segunda-feira porque tinham muitos problemas na cidade para resolver e não podiam ficar focados só ali”, relata. Foi preciso acionar a Guarda Municipal para que a intervenção saísse no mesmo dia. “Só fizeram depois de muita insistência”, afirma.

Sem obra que resolvesse, os próprios moradores assumiram a contenção. Em vários pontos do bairro, famílias se cotizaram, pegaram empréstimo, juntaram material e levantaram barreira por conta própria. Gorete Cutrim, no bairro há cerca de trinta anos, mostrou à reportagem o muro que a família ergueu. Segundo ela, quando chove forte, enquanto alguém fica de olho na encosta, outros tiram os móveis do chão. “Durante a noite a gente não dorme, fica em vigilância. Quando começa a chover, a gente já organiza as coisas dentro de casa e alguém precisa ficar aqui”, conta. Ela lembra que já viu um deslizamento levar parte da casa do filho, que o muro que tenta segurar o barro foi pago com um empréstimo da irmã, e que a tubulação que escoa a água por baixo da casa também saiu do bolso da família. O que Gorete espera, diz, é que no período sem chuvas o poder público construa um muro de contenção de verdade.
No alto de um morro no bairro, onde vive com os pais há trinta anos, o morador Marcelo Carvalho mostrou à reportagem o terreno que não seca, mesmo em dias sem chuva. “A população se juntou, cavou tudo com balde para tirar a lama. Entrou água nas casas e foi aquele sufoco”, lembra, sobre a vez em que uma barreira cedeu. Os sacos de areia que colocaram depois não tranquilizam ninguém. “Cada um dava um dinheiro, comprava material e a gente tentava fazer uma contenção”, diz. Ele teme que o morro inteiro venha abaixo. “Se isso aqui desabar, as casas vêm caindo uma atrás da outra. Quem estiver aqui embaixo vai morrer”, alerta.
Maria Domingues mudou-se para uma encosta do Sá Viana há dois meses, vinda do interior maranhense, por não ter outra alternativa de moradia. Diz saber do risco e não ter para onde ir. “Não tem outro lugar para eu ficar, aí estou morando aqui”, resume. Perguntada como se protege de um deslizamento, responde que, por ora, não há o que fazer.
Para o geógrafo Luiz Eduardo Neves dos Santos, professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), essa permanência tem origem antiga. A cidade cresceu sem planejamento, empurrando quem não tem renda para os terrenos que o mercado descarta, os mangues, os fundos de lixão, as encostas. “As pessoas acabam ocupando esses espaços porque não têm opção. O mercado imobiliário não quer essas áreas e essas populações, por falta do direito à moradia, acabam vivendo em locais sujeitos a tragédias”, afirma. Em encostas de forte inclinação, o solo sedimentar de São Luís encharca e perde firmeza na chuva, diz o professor. “Quando você ocupa áreas com mais de 45 graus de inclinação, o risco se torna muito maior. O solo encharca, perde estabilidade e acaba deslizando. Se houver casas em cima, essas casas podem cair”, explica.
O pesquisador acrescenta que viver assim fere um direito fundamental. Quem está nessas áreas fica sem saneamento, sem moradia segura, sem transporte, à margem do que a cidade oferece, condição que ele resume, recorrendo ao geógrafo Milton Santos, como a de uma “cidadania mutilada”. E essa exclusão, observa, tem cor e renda. No país, segundo o Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população das favelas e comunidades urbanas é proporcionalmente mais negra que a do restante do território. O Sá Viana, comunidade urbana em situação precária, reflete esse padrão, em que a desigualdade racial determina quem fica com os piores lugares para morar, o que os estudos urbanos chamam de racismo territorial. “Não é por acaso. São pessoas que historicamente têm as menores rendas e os piores empregos. É resultado de um processo histórico e de uma sociedade racista”, afirma.
Para o professor, a comparação com outras capitais ajuda a dimensionar o caso de São Luís. Ele observa que cidades maiores costumam ter Defesa Civil mais estruturada e mapeamento mais detalhado das áreas de risco. O relevo da capital maranhense, diz, tem menos morros que o de Recife, Salvador ou Rio de Janeiro, o que não significa ausência de perigo: ainda há encostas em outras áreas do próprio Itaqui-Bacanga e outros pontos da cidade, como o Sacavém e o Anil, onde, na chuva, o solo encharcado pode escorregar.




Os números oficiais confirmam o tamanho do problema. A partir do cruzamento do mapeamento e análise das áreas de risco de São Luís, feitos pela Sudec (Superintendência de Proteção e Defesa Civil), e das pranchas de setorização produzidas pela Semusc (Secretaria Municipal de Segurança com Cidadania), ambas obtidos via LAI (Lei de Acesso à Informação), o Atual7 contabilizou 5.844 pessoas vivendo em 87 áreas de risco em São Luís, expostas a deslizamentos, enchentes, alagamentos e erosão. Dessas, 31 ficam na macroárea Itaqui-Bacanga, onde está o Sá Viana. No bairro, a setorização mapeia cinco áreas: Aquiles Lisboa e Permínio Lindoso; Tomás de Aquino e Militana Ferreira; Maria da Paz, São Geraldo, Bela Vista e Travessa do Campo; Travessa Alberto Sales; e Travessa São Pedro, no Piancó. Entre janeiro e maio de 2026, a Defesa Civil registrou 257 ocorrências e fez 245 vistorias técnicas em áreas vulneráveis. Há um Plano de Contingência, atualizado em 2024, que prevê monitorar as áreas, emitir alertas e mobilizar equipes.
Os documentos, porém, não registram o que é feito pela gestão municipal de São Luís depois das vistorias. Não há, nos relatórios, indicador de efetividade: nenhum dado sobre quantas recomendações viraram obra, quantas encostas receberam intervenção definitiva, quantas áreas deixaram de ser de risco. Os laudos diagnosticam e param ali, enquanto os moradores do Sá Viana seguem comprando cimento entre vizinhos. O professor da UFMA avalia que o monitoramento dessas áreas, embora permanente, não se traduz em obra. Segundo ele, o investimento se concentra nas áreas valorizadas da cidade, enquanto a periferia segue sem drenagem e sem contenção. “Você tem Plano Diretor, legislação e instrumentos urbanísticos, mas a fiscalização é muito aquém do necessário. As pessoas continuam sujeitas a todo tipo de risco”, afirma.
Neyde atribui à Semosp (Secretaria Municipal de Obras e Serviços Públicos) a demolição de casas no bairro sem a obra que deveria ter vindo em seguida. Depois que famílias foram retiradas das residências ameaçadas, conta, a estabilização da encosta nunca foi feita, e os moradores ergueram sozinhos a estrutura. “Eles fizeram colunas, contenção, compraram material do próprio bolso. A prefeitura nunca voltou para resolver”, relata.
O Atual7 procurou os órgãos municipais ligados ao atendimento e à contenção nas áreas de risco. A Defesa Civil Municipal foi questionada em 18 e 27 de maio, 11 e 15 de junho, sobre os relatos de demora no atendimento e sobre o episódio em que uma ocorrência de risco iminente teria sido tratada como não prioritária. A SEMOSP foi procurada em 15 e 27 de maio, 11 e 15 de junho, sobre a demolição das casas e a contenção das encostas. À Prefeitura de São Luís, nas mesmas datas, foram dirigidas perguntas sobre proteção e assistência às famílias. Nenhum respondeu.
A reportagem procurou ainda a prefeita Esmênia Miranda (PSD), que assumiu em 31 de março de 2026 e foi vice-prefeita na gestão anterior, quando o mapeamento de risco foi feito. As perguntas trataram do que a gestão atual tem feito pelo Sá Viana e do que ela sabia, como vice, sobre a situação dessas famílias. Não houve retorno. Também foi procurado em 18 e 27 de maio e 15 de junho o ex-prefeito Eduardo Braide (PSD), que administrou a capital maranhense entre 2021 e março de 2026 e hoje é pré-candidato ao governo do Maranhão, sobre as obras de contenção do período e o que responde aos moradores que passaram a gestão no risco. Nem Esmênia nem Braide retornaram o contato.
Em 27 de maio, numa audiência pública convocada pelo MP-MA (Ministério Público do Estado do Maranhão), os moradores do Sá Viana voltaram a pedir as obras estruturais. Neyde diz que a comunidade não quer deixar o bairro. “Nós não queremos sair das nossas casas. O que a gente quer é que a prefeitura faça a obra de contenção que foi prometida e nunca foi feita”, exige.